sexta-feira, 14 de maio de 2010

A semana dos três F

Esta foi a semana do volta ao passado do antigo regime, retornado para nos salvar da crise. Em pensamento pelo menos, que o azar do "maior português de sempre", sua ‘eminência’, Doutor António de Oliveira Salazar, foi, entre muitas outras coisas, a não existência de agências de rating... Esta foi a semana dos mais puros e verdadeiros valores portugueses de outrora, simbolizados novamente pelos "três F": Fado, Futebol e Fátima.
A um mês da candidatura de Fado como património cultural imaterial da Unesco, esta semana temos novamente o “destino” na voz. Todos cantamos a crise ao som melancólico e dolente de um fado sem solução. E se Fado era Amália, hoje, Fado é muito mais do que uma pessoa, mas se o quisermos, a Mariza será, apesar de uma sombra, a mais Amália dos nossos dias.
No futebol, o Benfica era o Benfica e, esta semana e este ano, continua o Benfica.
Fátima está no mesmo sítio, mais rica e opulenta, menos modesta que já não há monte nem pastores e, esta semana, a nossa senhora é sua santidade.


Viva o Benfica!
Viva o Papa!
Viva… a Amália (que deus a tenha) e a Mariza (que deus a deixa cá estar)
Viva Portugal!


Não, não, não! Calma!
Esta não foi a semana dos três F, foi a semana dos três J!
Joseph (Ratzinger), Jorge Jesus e José (Castro)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

13-de-Maio.pt = Dolce far niente

-Oh Maria, tá a dar aquele senhor de branco e sapatos vermelhos na TB!
-Oh pá muda essa porcaria para a praça da alegria!
-Também tá a dar o senhor!
-Então muda para o outro da companhia!
-Também tá na mesma!
-Nem o Goucha!?
-Nada!
-Oh, desliga mas é essa porcaria
-Olha lá… porque é que nós não fomos trabalhar hoje?


Com toda a presunção, injustiça social e snobeira a que tenho direito,
13-de-Maio.pt = Dolce far niente!


PS: Oh senhor Vitor, o senhor não é funcionário público... Será que não podia ter aberto hoje? E o meu café?

terça-feira, 11 de maio de 2010

The hearts wants, what the heart wants

It’s a dream of a life a time. A feeling of an age, timeless and unforeseen. The wish of the small and the wish of the brave. It’s the one truth in all the lies. The thing that makes us fall and the same thing that makes us rise. It’s a single idea with no explanation. A distinct thought we run to and from by delight and by fear. Just has if it doesn’t exist, we deny it and for the same unsinkable reason, we embrace it. We drank it and we befuddle ourselves till we fall with hideous smile of happiness. It’s you… It’s me… It’s us in a speck of dust, in the air, in the trees, in our sand and in our water. It’s the world on the strings of the puppeteer of fate, the one that doesn’t exist but we all believe in. And for some strange reason, for a mere thought of greatness, a hope of unbearable love, a give in to all with the reciprocity of the unexplained, we think, we see, we touch and we close our eyes to the unusual. Not to not see it, but to perfect it by the darkness of the shutted eyes of imagination. And still, the image doesn’t go away. The fertile imagination doesn’t perfect it and we are delightful stuck with the meaning of beauty. We embrace its cold, its flaws, its temper and suddenly, we can no longer run from it all. It’s as if they were right all along, as if I don’t have the power of refusal or the will of choice. He has spoken what he wants and there is nothing that can be done but to suffer in the hands of the handless muscle that drives men to insanity. In the end, “the hearts wants, what the heart wants”.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Chove cá dentro

És tu que me contas o que já sei,
no teu repetido compasso
da sinfonia da gota e me revela
o que sinto mas não sei.
Ora lenta...
ora meiga...
ora tu, mas sempre compassada.
Há uma pureza na água dos céus
e no seu ressoar
que só eu e ela entendemos.
Um pouco como a irritação profunda
que partilhamos na insónia solitária,
por ser solitária.


Deixemos de lado a tranquilidade
do não saber e do saber,
a calma do respirar ao meu ouvido
e fiquemos só os dois.
Fiquemos contigo,
lenta...
meiga..
compassada,
enquanto me adormeces,
gota a gota.
Cada vez mais espaçada...
Longe...
Uma...
Outra..


E é então que a chuva pára
e com ela,
o respirar no meu ouvido.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Post 200...

E com tamanha rapidez, aparecem 200 textozinhos.
Sem interessar se era interpretado ou 'desinterpretado', motivado ou 'desinspirado', foram aparecendo 200 posts a escrever asneiras, divagações, parvoíces, suspiros e desabafos, que para grande admiração nossa, mas extremo agrado, ainda há quem leia.
Contradizendo-me, relembro os primeiros textos, as primeiras ideias e o porquê de fazer algo que não era meu: escrever para além de mim, para mostrar aos outros. E aquilo que era suposto ser o que um dia um 'cãoraivoso' ladrou de masturbação literária, tornou-se simplesmente um peep show de borla. Mudou-se o conceito de, ninguém tem nada a ver com nada, para, ora leiam lá isto!
E de repente, o telefone toca, "you've got mail", "adorei aquilo que escreveste" e, por tudo isto, corrompo o que dizia. Ou antes, altero-me e mostro. Mas altero-me demasiado rápido e mostro demais demasiado rápido. E cá estou eu, novamente a fazer o mesmo.


200 posts... 200 posts em pouco mais de um ano, eliminando sábados e domingos, revela não só que andei demasiado ocupado mas também revela muito lixo... Aos 300 reformo-me.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Oh senhor, francamente (parte 2)

Voltei.
Estou convencidíssimo que naquela repartição pública, fuma-se.
Eis que encontro a minha arqui-inimiga (na categoria de empregados do estado irritantes) ocupada com o cliente à minha frente. O primeiro da tarde!
-Este aqui é o senhor? Está muito diferente... Vai ter que me dar uma fotocópia do seu BI porque aqui tinha muito cabelo e agora nem vê-lo.
E de repente todos os restantes trabalhadores sentem uma série de afrontamentos e distraí-me com a confusão de ligar um ar condicionado. Virá-lo e revirá-lo, sobe escadote desce escadote, só porque no verão passado “estive o verão todo a antibiótico nos Covões por causa dessa porcaria. Não estou para isso!” e com isto perdi toda a conversa sobre dias úteis com o senhor de pouco cabelo.
-Sabe o que é que é? Não sei muito bem mas isto é calculado por eles... pelo computador. Se diz aqui que são estes dias úteis é porque são. Tem que cá vir noutro dia... Seguinte!
(aqui vou eu!)
-Boa tarde. Vinha levantar a minha carta.
-O que é que traz? Só isso? Hummm.. e já pagou? Traz o comprovativo?
-Não trago nada mas já paguei.
-Ainda não deve cá estar. Deixe-me aqui contar - enquanto, com os dedos, saltita de quadrado em quadrado do calendário de secretária contando 12 dias úteis. - Pois... se calhar já cá devia estar. Deixe-me procurar no monte.
(não encontra)
-OH ISABEL!? Tens aí a carta deste senhor?
-Qual é o nome?
-João ... (disse-o completo).
-Não, só aqui tenho duas.
E para isto não ficar muito extenso, a minha arqui-inimiga, vamos-lhe chamar... Gertrudes, procurou nos dossiers com todas as cartas ordenadas por ordem alfabética, voltou a chamar a Isabel que lhe voltou a responder:
-Só tenho aqui dois. Caraças que está cá um calor! Não dá por isto mais para cima de mim?
Deixando a Isabel e voltando-se ao deus todo poderoso, também conhecido por computador, eis que aparece a surpreendente informação de que a minha carta está naquela sala. Enviada e catalogada e arrumada, segundo aquele computador... na mesa da Isabel!
No cenário seguinte não me contive e tive mesmo que tapar a cara para não mostrar o meu divertimento. A Gertrudes, a Isabel e o... vamos lhe chamar António, a procurar o meu nome nos dossiers.
“Joao A a Joao D”
-Está procurar mal Gertrudes (não a tratei por tu mas fica melhor assim... shh). O meu nome está no dossier a seguir.
- Nunca se sabe. Pode estar mal arrumado.
- Eu procuro no José que é parecido, diz a Isabel.
- Eu verifico novamente no correcto, diz o António.
E 5 minutos depois, para grande surpresa da Gertrudes, o António encontra a minha carta no sítio dela. Devidamente catalogada e arrumada no dossier certo.
- Sabe o que é... também temos direito a falhar não acha? pergunta a Gertrudes.
- Claro! De vez em quando acontece... responde a Isabel.
António finaliza: – Desculpe o tempo que esteve à espera mas olhe, é como diz a física, tudo se perde nada de transforma.
Seguinte!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cobardes!

Somos os seres mais imperfeitos e escondemo-lo perfeitamente.
Crescemos a chorar, com medo, sem saber o que é o medo.
Nascemos com medo do escuro só para nos apercebermos que não é do escuro que temos medo, é do nada... do vazio e do ausente... do triste do só e dos outros. Temos medo de não ter e temos medo de perder. Chegamos até a ter medo de ser... só deixámos é de chorar.
Com os anos, passamos a fortes e conscientes, absortos do escuro e demasiado atentos a tudo para não ter medo. Sem medo!
Sem medo de estar, por isso não estamos, sem medo de viver e suicidamo-nos, sem medo de lutar, por isso fugimos, sem medo de dar e então guardamos. Tanto nenhum medo de ter qualquer medo, que não vemos que somos cobardes!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Lamento mas não sou homem para ti...

...e lamento ainda mais se não for o teu homem.
É que não sei nada de bricolage, furos na parede ou canos estragados.
Pouco sei de fios e lâmpadas e a electricidade mete-me medo. Desligo-te o quadro se quiseres, mas preferia que chamasses alguém.
Como sabes, detesto bichos e uma pequena aranha tem o poder de me fazer saltar para cima de uma cadeira. Mato-te todas as melgas que desejares, mas mais do que isso, só de lata numa mão e vassoura na outra.
Se não te importares, não me peças para fazer o IRS ou tratar das contas. Eu lembro-te...
Não como muito ao pé de ti e talvez por isso não sou forte o suficiente para te pegar ao colo o tempo que gostava. Lamento mas só consigo uma volta e meia.
Apesar de saber fazer voz grossa pouco sei discutir como um homem deve saber.
Se tivermos um furo chamo o reboque e de mecânica o meu auge foi um carro da Lego.
Sou apartidário e a política pouco me importa. O país não está assim tão mal e Sócrates só o filósofo.
É vergonhoso que não te possa dar conselhos de economia e a engenharia que sei a ti não serve.
Espero que não te importes não gostar muito de futebol. Embora a mini seja indispensável na minha vida.
O meu carro está sempre mais sujo do que o teu.
Mal me sei orientar num supermercado e as compras que faço saem todas trocadas.
O que comeste feito por mim foi um erro ou uma sorte.
E se ficares doente telefono à tua mãe!
Lamento. Não sou homem para ti!
Pois não?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Hoje não, mas amanhã quem sabe...

- Ainda nos vão fazer uma estátua, vais ver! Numa praça com o nosso nome, turistas virão só para nos ver de bronze. Seremos a casa banho dos pombos e o pano de fundo de uma moldura de sala. De noite estaremos iluminados pelos pés porque ainda vamos ser o marco de uma cidade. Vais ver, um dia, ainda nos vão fazer um estátua! Hoje não, mas amanhã, quem sabe...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Oh senhor, francamente!

-Boa tarde.
-Boa tarde. Vinha levantar a minha carta.
-Só um momento que já o atendo.
-...
-Só traz isso? O que é que traz? Ainda não deve cá estar.
-Informaram-me que hoje já cá estaria.
-Quem é que o informou? Já passaram 8 dias úteis? Dê cá isso... Leia aqui: "...até 8 dias úteis..."! Vamos contar os dois: 1..2..8.
-Exacto. Hoje faz 8 dias úteis, por isso aqui estou.
-Oh senhor, ATÉÉÉ 8 dias úteis!
-De qualquer forma procure aí no monte se não se importa.
-Tiago?
-João...
-Filipe?
-João...
-Como é que se chama?
-João.
-Olhe! Veja aqui esta. Dia 10 de Abril! De 11 não tenho nenhuma! Tenho uma de 12 mas deve ser engano.
-Mas olhe que de dia 10 Sábado ou 11 Domingo até hoje, são os mesmos dias úteis...
-Oh senhor, francamente. Vou-lhe ali apontar para o calendário da parede e conte lá os dias.
(rio-me de forma contida)
-Não é preciso, de Sábado até hoje, são os mesmos dias úteis do que Domingo até hoje.
-Oh senhor, 'tá a ver este monte de senhas? São todas da manhã. Você é o primeiro da tarde. Quer-me estragar já a tarde?! Francamente!
-Deixe estar. Procure aí no monte novamente.
(enquanto procura, olhando para os papéis que folheia)
-Oh senhor, francamente.. Eu nem estou a perceber que raciocínio é que está a fazer.. Nem quero pensar muito nisso, mas oh senhor, francamente...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vago

No silêncio voltam as palavras. Volta o Gin. Voltam as vozes e volta o imaginário, mas pela primeira vez, preferíamos não voltar a escrever.
Na banalidade do nada quase perdemos tudo e não é um recado a quem não ouve nem uma lição de quem não sabe. É apenas a grande ausência de uma consciência entre muitas inconsciências de tudo. É uma trégua farta, um cansar de rastos, um esgotar exausto e um gritar insonoro. É um pedido de ajuda e um esticar de mão. Uma bóia para quem não nada e um tónico para quem não dorme...
Se o vago é vagamente incompreendido, o concreto não chega.
.Não percebo...
,Nem eu...
Deixamos estragar o que não se aproveita e deitamos fora só porque já não serve. Mas o mundo não é verde e a reciclagem só é tricolor. Quando a é. A sucata está cheia e fazemos mais lixo do que nós. Crescemos os sujos que se limpam a toda a hora. Crescemos iguais e somos a moda. Vemos por um canudo alheio a vida dos outros e inspiramos o pútrido ar da regeneração.
.Continuo sem perceber
,Nem eu...
Vivemos para o amor e amamos o nada. Queremo-nos a nós de uma garfada e aos outros em degustação. Sorvemos a vida num beijo para fechar os olhos ao impossível.
,Lutemos então!
.Reciclemos.
De Gin ou de bóia, diferentes ou na moda, não importa!
Desde que não vagueemos. 

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ele e Ela


Acabou a música e a comida. Pior, acabou o vinho.
Ele, embriagado mas não pelo vinho, fixa-se nos seus magníficos olhos castanhos, naqueles olhos cor de felino, sem nunca se aperceber que isso a assustava, até a ouvir perguntar num rugido quase a medo – Que foi?!
Ela, sempre sedutora e provocadora, levanta-se da mesa a dois, saindo lentamente da sala de jantar, virando-lhe as costas dissimuladamente sem interesse mas com um sorriso nos lábios que ele não via. Passeia-se pela casa, aparentemente indiferente e atarefada com a vida que não era a dele.
Ele, agora sentado no chão comodamente revestido, ouve ironicamente a See-Line Woman da Nina vendo-a a duas cores e sorri também por isso. Sorri pela coincidência e pela conjectura daquela música. Esquece tudo, aumenta o volume e deseja, repetidamente, vem-te passear para este chão e vem ouvir a minha música!
Ela, sentindo-o demasiado quieto, aproxima-se silenciosamente dele e fica a olhá-lo, observando-o, sentado a dançar e a sorrir. Chega-se mais perto, como uma leoa na sua própria savana, examinando não a presa mas um cenário. Denuncia a sua presença.
Ele, sem tirar o sorriso estampado, vendo-a já junto a ele a aproximar-se, descendo sobre si, acompanhando-o no seu desejo repetido de então, estica-lhe a mão num abraço e sente-a junto dele.
Ela, sem resistir, deixando-se domar, entrega-se sem querer combater aquele sentimento de entrega e descoberta e cai rendida ao mesmo tempo no seu peito e no seu colo.
Ele, envolvendo-a nos seus braços, olhava para a Nina, vendo os seus olhos de uma inexpressão imutável, naquela ausênsia de sentimento com que contrasta o seu cantar, naquela magia com que a Nina envolvia a sala ao dizer, Be My Husband, e pede-a mais uma vez em casamento.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Imponderável

Dizemos,
Desfazemos,
Matamos e
Atropelamos.
Ouvimos o desagradável,
Vemos o impensável
Fruto do imponderável!
E o que mais me toca,
Não foi como ela o coloca...
Foi como ele justaposta,
Aquela maravilhosa resposta!

(tudo em: )

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nocturno

Levantou as golas do blusão de cabedal e avançou pelo passeio, ouvindo o eco dos seus passos nos portais vazios. O tráfego era diminuto e só de vez em quando os faróis de um automóvel a iluminavam por trás, projectando a sua silhueta comprida e estreita, primeiro alongada à frente dos pés e depois mais curta, oscilante e fugitiva para um dos lados, à medida que o ruído do motor aumentava atrás de si até a ultrapassar, esmagada e desaparecida a sombra contra a parede, enquanto o carro, agora dois pontos vermelhos e outros dois reflectidos sobre o asfalto molhado, se afastava rua acima.
Deteve-se num semáforo. Enquanto esperava o verde, procurou outros verdes na noite e encontrou-os nas luzes fugidias dos táxis, em semáforos ao longo da avenida, no néon distante, combinado com o azul e amarelo, de uma torre de vidro em cujo último andar, de janelas iluminadas, alguém fazia a limpeza ou trabalhava àquela hora. O verde acendeu e atravessou, procurando agora vermelhos mais abundantes na noite de uma grande cidade; mas interpôs-se o lampejo azul de um carro da polícia que passava ao longe sem que chegasse a ouvir a sirene, silencioso como uma imagem muda. Vermelho automóvel, verde semáforo, azul néon, azul lampejo... Essa seria a gama de cores, pensou, para interpretar aquela estranha paisagem, a paleta necessária na execução de um quadro que poderia ironicamente chamar-se Nocturno e seria exposto na galeria Roch. Tudo adequadamente combinado com tons de negro: negro escuridão, negro trevas, negro medo, negro solidão.
Tinha realmente medo? Noutras circunstâncias, a pergunta teria sido um bom tema de discussão académica, na agradável companhia de alguns amigos, numa divisão cómoda e aquecida, em frente de um fogão e com uma garrafa ainda a meio. O medo como factor inesperado, como consciência perturbadora de uma realidade descoberta num momento concreto embora sempre ali tivesse estado. O medo como final demolidor da inconsciência ou como ruptura de um estado de graça. O medo como pecado.
No entanto, caminhando por entre as cores da noite, era incapaz de considerar o que sentia como uma questão académica. Já sentira antes, como é óbvio, outra manifestações menores do mesmo: o conta-quilómetros que ultrapassava o razoável enquanto a paisagem desfila rapidamente à direita e à esquerda e o risco intermitente do asfalto parece uma sucessão de balas de metralhadora, como nos filmes de guerra, engolidas pelo ventre voraz do automóvel; ou a sensação de vazio, de profundidade insondável e azul ao mergulhar da coberta de um barco no alto mar e nadar, sentindo a água escorregar sobre a pele nua, com a desagradável certeza de que qualquer espécie de terra firme está demasiado longe dos pés; até mesmo outros terrores vagos que fazem parte de nós mesmo durante o sono, estabelecendo caprichosos duelos entre a imaginação e a razão, aos quais, regra geral, basta uma acto de vontade para reduzir à recordação ou ao esquecimento com um simples abrir de pálpebras para as sombras familiares do quarto.
Mas aquele medo que acaba de descobrir era diferente: novo, insólito, desconhecido até então, amadurecido pela sombra do Mal com maiúscula, inicial do que está na origem do sofrimento e da dor; o Mal que só pode ser pintado com negro escuridão, negro trevas, negro solidão; o Mal com M de medo, com M de matar.