quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Paz Interior



Não se sabe bem porquê mas está lá, presente em cada mais momentos do que desejaríamos, num (aparente) infinito eco de pequena dimensão, que mói... que insiste... que repete e repete e, repetidamente, paira sobre nós entranhando-se numa incómoda voz omnipresente.
Depois, o tempo passa e a loucura aumenta, espalha-se, entranha-se ainda mais e corrói o que falta roer. Agora, a normalidade é ouvir e o estranho é o silêncio.
Somos mesmo aquilo que desejamos ser: aquilo a que nos propomos, não pelo que nos precisamos de convencer, porque nem sempre é o que queremos, mas pelo que sabemos que queremos.
Já sei!
E numa chegada: o silêncio...
Já sei!
E num pensamento: o silêncio?!
E as cores do mundo são diferentes, onde os únicos tons de cinzento são uma névoa que paira, que flutua, ora mais leve que o ar, ora, por vezes (raramente), mais pesada. As vozes imperceptíveis, são agora sopros de suspiros airosos que não sabem roer, porque não têm corpo nem voz.



terça-feira, 23 de agosto de 2011

Subconsciente




É pelo nosso próprio sono que o subconsciente não nos deixa dormir. Fala-nos em susto, grita-nos em silêncio de caras tapadas e rosna-nos ao pasmo.
Eu, que não me lembro da última vez que sonhei, que me canso do mundo para não sonhar, que tenho medo dele e o torno alcoólatra para que durma, sorrio ao mundo a preto a branco. Nos meus não sonhos de não sono, ainda sou bicho. Lavo-me em formato esquizo de pensamento dividido, unilateral, comunicando sem ser comunicado.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Zéquinha




- Tu é que andas de SLK não é?
- Yah.
- Então e quando tiveres filhos?
- Compro um a Diesel.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Génio do norte



- Se pudessem escolher uma mulher para se apaixonar loucamente por vocês quem é que bocês escolhiam?

- ...
- Eu escolhia a Hilary Clinton... debe ser espetacular ter esse tipo de poder e dizer, "enbia o sudão cu caralho!"


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

2cv




- Que tal esta ?

- Não gosto. Tem os olhos mto afastados da cara.
- É... Parecem os farois de um dois cavalos.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

perceções mal observadas



- A Inês era a miúda mais gira da festa.
- Não, não era. Era era a da saia mais curta.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

FooOool.e




Ás vezes apetece-me comprar um bandoneón só para ter o prazer de o desfazer em pedaços de pontapés musicais, a um murro por oitava!
Uma simples ideia, é quanto basta para destruir o pensamento. Por sua vez, muitas outras vezes, um pensamento, é quanto basta para fazer surgir uma ideia.
Uma lagarta concertina de raciocínio que dá vontade de bater só por ousar alterar-me o ritmo cardíaco!
O pior suplício do homem, é uma espera e a pior categoria em que se pode alguma vez encaixar, é o cinzento.



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Guardada nos Rascunhos





Hoje acordarei cheio de coragem!
Pronto para enfrentar o mundo e lhe mostrar quem manda. Com a coragem que acordarei para ensinar o mundo, aconselhar a todos - que todos me parecem procurar o conselho. Aparentemente, é em mim que a verdade vive e, por isso mesmo, ensino e mostro e sorrio a sabedoria do óbvio e do teórico, aquela de que todos parecem precisar.
Deste lado logo se vê... se via, porque hoje, hoje cuidarei de mim. Curar-me-ei, completar-me-ei mais um pouco e comigo mesmo, e farei ainda um pequeno acrescento.
Corajoso, vou denunciar o interior e viver para a lua ao sol. Vou aprender a voar, a crescer e a aparecer, e vou dizer que estou ali, e aqui e ali, sempre e ao mesmo tempo.
Hoje, vou dizer que sim e não ter medo do não.
Vou ser pensamento em voz, corajosa presença numa vulgar coragem que julgo ser só minha e, no derradeiro e final acto, corajoso, como sempre acordo e me deito, carrego no vermelho e leio todas as nobres intenções numa única fralda: "Guardada nos Rascunhos".



quinta-feira, 21 de julho de 2011

3218




Todos os dias um acaso diferente. Uma, ocasião imprevista que produzia um facto: o próprio acaso. Um acontecimento inesperado, repentino - casual mesmo - até ao "Feliz Acaso" que era ele próprio a hipótese fortuita de que, se calhar, talvez, por um mero contínuo acaso, naquele dia, desejar insistentemente e de forma repetida, de olhos fechados, cerrados a toda força, engelhados na pele e na expressão e na força do desejo, um 3218.
600 mil pessoas em Lisboa e, naquele dia, no dia que o mais desejou, como se - pensava - fosse impossível desejar ainda mais, vezes e vezes sem conta, com todo o falso poder da sua cabeça que tentava em vão influenciar o mundo e o acaso, a provocar o próprio acaso, eis que surge um redondo e magnífico e azul e alheio a ele e ao mundo... 3218... edição especial... sem parar... deixando-o parado... num repetido sinal vermelho, de um apático acompanhar de cabeça alheio ao restante.
Nessa noite de 3ª feira haveria de sonhar... e muito. - E infelizmente!, acrescentava-lhe o fustigado interior.



terça-feira, 19 de julho de 2011

El hijo de la novia



- ¡Osvaldo, ayudame! ¡Me quieren robar!
(Rafa) No tengas miedo.
(Osvaldo) ¡Rajá de acá, te rompo la cara!
(Rafa) ¡No, por favor! ¡Nati! ¡Nati, abríme! ¡Es mi novia! Déjame hablarle por el portero.
(Osvaldo) ¡El portero soy yo y con vos no hablo!
(Natalia) Osvaldo, déjalo.
(Rafa) ¿Qué te dije? Es mi novia.
Abríme la puerta, necesito que me escuches.
(Natalia) No, ¿qué querés?
(Rafa) Necesito hablar con vos, a solas.
(Osvaldo) No sé qué hacer con este tipo.
(Rafa) Quédate, qué carajo me importa. Oíme, correte.
Escuchame, por favor. Necesito que me escuches. Lo hice todo mal. Nunca te escuché, nunca te di bola. Pero parece que lo vi, el problema. Y dicen que si lo ves, eso es parte de la solución. La cagada es que no te dicen qué parte es. ¿El 50%, 2%? No sé.
Pero... yo creo que me hizo bien la terapia. La intensiva, digo.
Qué más.
Ya sé, sí. Que, bueno... no es verdad que no quiero tener más problemas. Yo no quiero problemas con las cuentas... pero quiero los tuyos. Quiero los de Vicki, los de mis viejos. Te lo juro. Son mi familia. Yo los quiero ayudar. Y que... mirá... yo quiero... vivir toda una vida con vos, llena de problemas, los tuyos y los míos... porque esos son problemas... esos son. Y el que no tiene esos problemas... ése es el problema más grande que puede tener.
Y... Que aunque no sea no sé... Bill Gates... Einstein o Dick Watson...quiero vivir toda mi vida con vos. Llena de problemas. Y te voy a cuidar... te voy a cuidar por más problemas que tengas.
¡Que tenga!
¡Que tengamos!
Y... no sé qué más decirte.
Decime algo vos, por favor.
...
No contesta.
(Osvalado) Y, las niñas son un problema, hermano.
¿Quién es Dick Watson?
(Rafa) Qué sé yo.
(Osvaldo) Yo al muchacho lo veo sincero, Natalia.



segunda-feira, 4 de julho de 2011

Que és ______ ?



______ es lo que miras, lo que sigues mirando, no sabes porque continuas mirándolo y no consigues dejarlo de mirar. Es lo que recuerdas con una sonrisa y muy ______, es lo que recuerdas con una risa. Es lo que te hace suspirar. Es lo que te gusta y no comprendes porque te está gustando. ______ es como la piel de una mujer, como tus ojos cuando se abren, como tu pecho lleno de aire, como el descubrimiento de tus manos, como tus pies descalzos en la arena más fina, como el toque del sol en tu rostro y es como la brisa en tu cuerpo desnudo.



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Bóia Pretérita Imperfeita




Futura é a desilusão assombrada:
Planos por terra ____ de voar:
Cartas sem trunfos:
Ideias sós que não mais do que de ideias:
A representação teatralmente ocupada,
As Peças
Os Actos
Os Momentos em utopia que nunca ______,
apenas por terem sido planeados.
Os desejos,
muitas vezes agradecidos pelas estrelas,
________ maneira de lhe chegar,
encontra__-no.
Os planos, precisos,
elaborados,
mais certos ____ do fracasso.
Bisonho futuro de jovens planos,
Vate louco da vida!
- Estou cansado, disse.
Sinto um cansaço que é só meu e que por isso,
me cansa ainda mais,
Me corrói e me come os cantos de mim.
É um cansaço de estômago e de cabeça e de uma falta de vontade do mundo que me come o âmago.
É uma guerra de Domingo que amanhã será branca,
cada vez menos,
até ao próximo plano, ou Domingo.
É um cansaço pelo futuro de ontem e pelo passado de amanhã e é só isso que cansa.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

mulher fatal




É uma noite quente, sufocante e sem vento. Daquelas noites que levam as pessoas a fazer coisas secretas, suadas. Eu espero. E escuto. Por momentos tudo fica tão silencioso quanto é possível em Sin City. Coiotes uivam nas colinas. O ruído das sirenes da polícia eleva-se no ar, antes de ser abafado pelo rugido surdo do tráfego. Começo a ficar com a perna direita dormente e penso em descer as escadas e recuperar o dinheiro com que subornei o porteiro, quando ouço o ruído das chaves na fechadura e eles entram...

- Esta é a última vez, Sally. Tem de ser a última vez!
- Como quiseres, Joey.
- Desta vez é a sério!

Ela desliza para fora do casaco como quem desembrulha um presente lentamente, para exibir o material. E que material! Tem um corpo capaz de despertar um morto. A voz é que estraga tudo. Uma vozinha aguda, de menina mimada. Açucarada e cheia de falsa inocência.


- Sonhei contigo ontem à noite, Joey. Foi um belo sonho. Queres que to conte?
- Hoje não tenho tempo para sonhos. Não tenho muito tempo. Tenho que voltar para casa cedo. Esta é a nossa última vez. Não posso continuar a correr riscos destes.
- Como quiseres, Joey. Tu mandas. Tu é que és o chefe.

Ele acrescenta mais uma boa meia dúzia de sílabas a "chefe", assobiando o fff final como uma profissional. Isso basta para deixar o idiota a arfar.


- É essa maldita da Glória. Não pára de me fazer perguntas. Aposto que suspeita de alguma coisa. Se me levar a tribunal fica-me com tudo!
- Tudo o que tu trabalhaste tanto para ganhar.
- Tens toda a razão. Trabalhei como um cão. Trabalhei a vida toda, noite e dia. Anos e anos. Construí um negócio do nada. Do nada!
- E ninguém dá valor ao teu esforço, Joey? Não como tu mereces.
- É isso mesmo. Ninguém! Nem os meus empregados, que se não fosse eu, andavam a pedir nas ruas e muito menos a Glória, grande puta! Vive na casa que eu lhe comprei, veste as roupas que eu lhe paguei com o dinheiro que custou a ganhar e não dá o mínimo valor ao meu esforço!
- Nem sequer se dá ao trabalho de tentar perceber a pressão a que estou sujeito. Nem sequer tenta! Maldita! Sempre em cima de mim, sempre com exigências. Nunca me deixa respirar tal como todos esses preguiçosos que não receberiam o ordenado se eu não lhes assinasse os cheques... Eles podem adoecer, mas eu? Nem pensar!
- Isso é porque tu és forte.
- PODER CRER QUE SIM! MAS ALGUÉM RECONHECE ISSO? NÃO! SÓ ME QUEREM EXPLORAR! UM DIAS DESTES DESPEÇO-OS A TODOS! MOSTRO-LHES QUEM É O PATRÃO. MOSTRO-LHE QUEM É QUE MANDA!
- Podes mostrar-me a mim, Joey. Podes mostrar-me quem é que manda.
- Eu vou-te mostrar... vou-te mostrar quem é que manda...

Então ela começa a gemer e a chamar-lhe chefe enquanto ele grunhe. A coisa termina depressa.
Já tenho tudo o que precisava. O mais triste é que algumas das fotos que tirei estão muito boas.


- Oh meu deus Joey. Foi fantástico. Fizeste-me sentir como uma mulher. Sei que soa foleiro, mas é verdade. A mais pura das verdades. Só um homem a sério faz uma mulher sentir-se assim.
- Amo-te, miúda. Sabes bem que te amo.
- Também te amo, Joey. Tu és tudo o que sempre quis num homem. Conto os minutos quando tu não estás. É a pura verdade! Começam-me a doer os pulsos. Podes-me passar as chaves das algemas. Estão na minha bolsa.
- Nem imaginas o quanto eu te amo! Quanto me tenho sacrificado. Quanto isto me custa...
- Joey... que estás a fazer?!
- Isto está a dar cabo de mim! Amo-te tanto... Mas tenho que o fazer! Trabalhei muito para chegar aqui! Como um cão! E a Glória vai ficar com tudo! A culpa é dela! Não tenho alternativa!
- Não, Joey! Por favor. Não digo a ninguém. Juro por deus!
- Eu sei que tu não queres falar, Sally, eu sei disso...
- Joey... suplico-te, querido...
- Não tornes isto mais difícil, puta de merda!
- Ninguém mata ninguém. Pelo menos à minha frente.
- MATA-ME JÁ ESSE CABRÃO!
- *WHUDD*


"Então, dás-me boleia?" pergunta ela na sua verdadeira voz, uma que há muito perdeu a inocência. Pego na chave e tiro-lhe as algemas. Servem para prender o outro palhaço até chegar a mulher da limpeza. À saída, ela dá-lhe um pontapé de despedida que lhe vai doer depois de acordar.
Apanho a estrada para El Redondo ao longo da colina até à cidade velha. É o caminho mais longo mas, da maneira como ela treme, imagino que este passeio só lhe fará bem. Ao princípio, o mais que ela consegue fazer é soluçar, assoar-se e fumar. Fuma-me seis cigarros. Quando ela estava a começar a acalmar, uma loura cheia de pressa quase que nos atira para a valeta. A pobre da Sally quase morre de susto. Aquela vaca conduz como se tivesse o diabo a persegui-la. Deve ser louca. Nunca há justificação para exceder os limites de velocidade.


- Obrigada por me salvares a vida, amigo!

Ela arranja a maquilhagem e afasta-se num passo sedutor enquanto acena um adeus e lança uma piscadela de olho cúmplice. Uma puta para outra. Foi a última coisa que vi dela antes de submergir no mar de carne da cidade velha.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

dramatikós


- Daqui a 30 dias vou morrer.
- Então, egoisticamente, serei a última pessoa que verás. Depois, morrerei eu todos dias, até te voltar a encontrar.