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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Letters to Juliet



Dear Claire,

"What" and "If" are two words as non-threatening as words can be. But put them together side-by-side and they have the power to haunt you for the rest of your life:

                                                                           What if?
                                                                                                                           What    if?
                                 What       if   ?

I don't know how your story ended but if what you felt then was true love, then it's never too late. If it was true then, why wouldn't it be true now? You need only the courage to follow your heart. I don't know what a love like Juliet's feels like - love to leave loved ones for, love to cross oceans for but I'd like to believe if I ever were to feel it, that I will have the courage to seize it. And, Claire, if you didn't, I hope one day that you will.

All my love, Juliet.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Barbarella e barba rala @ Pop Up



teremos sempre paris
construido de raíz (hum, hum)
com cobertores no chão

pra que o tempo não gangrene
o nosso outro nos saia (hum, hum)
retorno ao ser etéreo

tinta preta doce mel
entre favos de papel (hum, hum)
os medos lambuzados

recuamos para a frente
tango pouco inteligente
avançamos para trás
tango muito eficaz
ou não

no velho carro ligeiro
eu fui sempre passageiro (hum, hum)
voces foram par pra sempre

escuro comprometedor
era um tunel do amor (hum, hum)

e eu só liguei os mínimos
acercamo-nos instantes
se queremos ser estudantes (hum, hum)

morramos em tienanmen
recuamos para a frente
tango pouco inteligente
avançamos para trás
tango muito eficaz
ou não

choramos os nossos risos
fados muito imprecisos
rimo-nos dos nossos ais
fados pouco casuais
ou não



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

a cidade de ulisses



Os turistas vão à procura de lugares para fugirem de si próprios, da rotina, do stress, da infelicidade, do tédio, da velhice, da morte. Vêem os lugares onde chegam apenas de relance e não ficam a conhecer nenhum, porque logo os trocam por outros e fogem para mais longe. Os viajantes vão à procura de si, noutros lugares que ficam a conhecer profundamente, porque nenhum esforço lhes parece demasiado e nenhuma passo excessivo, tão grande é o desejo de se encontrarem.
As agências de viagens e os turistas só se interessam, obviamente, pelas cidades reais. Os viajantes preferem as cidades imaginadas. Com sorte, conseguem encontrá-las, ao menos, uma vez na vida.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

El hijo de la novia



- ¡Osvaldo, ayudame! ¡Me quieren robar!
(Rafa) No tengas miedo.
(Osvaldo) ¡Rajá de acá, te rompo la cara!
(Rafa) ¡No, por favor! ¡Nati! ¡Nati, abríme! ¡Es mi novia! Déjame hablarle por el portero.
(Osvaldo) ¡El portero soy yo y con vos no hablo!
(Natalia) Osvaldo, déjalo.
(Rafa) ¿Qué te dije? Es mi novia.
Abríme la puerta, necesito que me escuches.
(Natalia) No, ¿qué querés?
(Rafa) Necesito hablar con vos, a solas.
(Osvaldo) No sé qué hacer con este tipo.
(Rafa) Quédate, qué carajo me importa. Oíme, correte.
Escuchame, por favor. Necesito que me escuches. Lo hice todo mal. Nunca te escuché, nunca te di bola. Pero parece que lo vi, el problema. Y dicen que si lo ves, eso es parte de la solución. La cagada es que no te dicen qué parte es. ¿El 50%, 2%? No sé.
Pero... yo creo que me hizo bien la terapia. La intensiva, digo.
Qué más.
Ya sé, sí. Que, bueno... no es verdad que no quiero tener más problemas. Yo no quiero problemas con las cuentas... pero quiero los tuyos. Quiero los de Vicki, los de mis viejos. Te lo juro. Son mi familia. Yo los quiero ayudar. Y que... mirá... yo quiero... vivir toda una vida con vos, llena de problemas, los tuyos y los míos... porque esos son problemas... esos son. Y el que no tiene esos problemas... ése es el problema más grande que puede tener.
Y... Que aunque no sea no sé... Bill Gates... Einstein o Dick Watson...quiero vivir toda mi vida con vos. Llena de problemas. Y te voy a cuidar... te voy a cuidar por más problemas que tengas.
¡Que tenga!
¡Que tengamos!
Y... no sé qué más decirte.
Decime algo vos, por favor.
...
No contesta.
(Osvalado) Y, las niñas son un problema, hermano.
¿Quién es Dick Watson?
(Rafa) Qué sé yo.
(Osvaldo) Yo al muchacho lo veo sincero, Natalia.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

mulher fatal




É uma noite quente, sufocante e sem vento. Daquelas noites que levam as pessoas a fazer coisas secretas, suadas. Eu espero. E escuto. Por momentos tudo fica tão silencioso quanto é possível em Sin City. Coiotes uivam nas colinas. O ruído das sirenes da polícia eleva-se no ar, antes de ser abafado pelo rugido surdo do tráfego. Começo a ficar com a perna direita dormente e penso em descer as escadas e recuperar o dinheiro com que subornei o porteiro, quando ouço o ruído das chaves na fechadura e eles entram...

- Esta é a última vez, Sally. Tem de ser a última vez!
- Como quiseres, Joey.
- Desta vez é a sério!

Ela desliza para fora do casaco como quem desembrulha um presente lentamente, para exibir o material. E que material! Tem um corpo capaz de despertar um morto. A voz é que estraga tudo. Uma vozinha aguda, de menina mimada. Açucarada e cheia de falsa inocência.


- Sonhei contigo ontem à noite, Joey. Foi um belo sonho. Queres que to conte?
- Hoje não tenho tempo para sonhos. Não tenho muito tempo. Tenho que voltar para casa cedo. Esta é a nossa última vez. Não posso continuar a correr riscos destes.
- Como quiseres, Joey. Tu mandas. Tu é que és o chefe.

Ele acrescenta mais uma boa meia dúzia de sílabas a "chefe", assobiando o fff final como uma profissional. Isso basta para deixar o idiota a arfar.


- É essa maldita da Glória. Não pára de me fazer perguntas. Aposto que suspeita de alguma coisa. Se me levar a tribunal fica-me com tudo!
- Tudo o que tu trabalhaste tanto para ganhar.
- Tens toda a razão. Trabalhei como um cão. Trabalhei a vida toda, noite e dia. Anos e anos. Construí um negócio do nada. Do nada!
- E ninguém dá valor ao teu esforço, Joey? Não como tu mereces.
- É isso mesmo. Ninguém! Nem os meus empregados, que se não fosse eu, andavam a pedir nas ruas e muito menos a Glória, grande puta! Vive na casa que eu lhe comprei, veste as roupas que eu lhe paguei com o dinheiro que custou a ganhar e não dá o mínimo valor ao meu esforço!
- Nem sequer se dá ao trabalho de tentar perceber a pressão a que estou sujeito. Nem sequer tenta! Maldita! Sempre em cima de mim, sempre com exigências. Nunca me deixa respirar tal como todos esses preguiçosos que não receberiam o ordenado se eu não lhes assinasse os cheques... Eles podem adoecer, mas eu? Nem pensar!
- Isso é porque tu és forte.
- PODER CRER QUE SIM! MAS ALGUÉM RECONHECE ISSO? NÃO! SÓ ME QUEREM EXPLORAR! UM DIAS DESTES DESPEÇO-OS A TODOS! MOSTRO-LHES QUEM É O PATRÃO. MOSTRO-LHE QUEM É QUE MANDA!
- Podes mostrar-me a mim, Joey. Podes mostrar-me quem é que manda.
- Eu vou-te mostrar... vou-te mostrar quem é que manda...

Então ela começa a gemer e a chamar-lhe chefe enquanto ele grunhe. A coisa termina depressa.
Já tenho tudo o que precisava. O mais triste é que algumas das fotos que tirei estão muito boas.


- Oh meu deus Joey. Foi fantástico. Fizeste-me sentir como uma mulher. Sei que soa foleiro, mas é verdade. A mais pura das verdades. Só um homem a sério faz uma mulher sentir-se assim.
- Amo-te, miúda. Sabes bem que te amo.
- Também te amo, Joey. Tu és tudo o que sempre quis num homem. Conto os minutos quando tu não estás. É a pura verdade! Começam-me a doer os pulsos. Podes-me passar as chaves das algemas. Estão na minha bolsa.
- Nem imaginas o quanto eu te amo! Quanto me tenho sacrificado. Quanto isto me custa...
- Joey... que estás a fazer?!
- Isto está a dar cabo de mim! Amo-te tanto... Mas tenho que o fazer! Trabalhei muito para chegar aqui! Como um cão! E a Glória vai ficar com tudo! A culpa é dela! Não tenho alternativa!
- Não, Joey! Por favor. Não digo a ninguém. Juro por deus!
- Eu sei que tu não queres falar, Sally, eu sei disso...
- Joey... suplico-te, querido...
- Não tornes isto mais difícil, puta de merda!
- Ninguém mata ninguém. Pelo menos à minha frente.
- MATA-ME JÁ ESSE CABRÃO!
- *WHUDD*


"Então, dás-me boleia?" pergunta ela na sua verdadeira voz, uma que há muito perdeu a inocência. Pego na chave e tiro-lhe as algemas. Servem para prender o outro palhaço até chegar a mulher da limpeza. À saída, ela dá-lhe um pontapé de despedida que lhe vai doer depois de acordar.
Apanho a estrada para El Redondo ao longo da colina até à cidade velha. É o caminho mais longo mas, da maneira como ela treme, imagino que este passeio só lhe fará bem. Ao princípio, o mais que ela consegue fazer é soluçar, assoar-se e fumar. Fuma-me seis cigarros. Quando ela estava a começar a acalmar, uma loura cheia de pressa quase que nos atira para a valeta. A pobre da Sally quase morre de susto. Aquela vaca conduz como se tivesse o diabo a persegui-la. Deve ser louca. Nunca há justificação para exceder os limites de velocidade.


- Obrigada por me salvares a vida, amigo!

Ela arranja a maquilhagem e afasta-se num passo sedutor enquanto acena um adeus e lança uma piscadela de olho cúmplice. Uma puta para outra. Foi a última coisa que vi dela antes de submergir no mar de carne da cidade velha.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Planet of Women





The two headed ladies said I couldn't land my ship.
I said "it will only take a minute".

- well, she said
- what's in it ?
- oh, I don't know, just some weird shit
- OK.

when I got to the surface there were women everywhere
-Hey, how you're doing?
and all the men were slaves, they had us all dressed up in chains
-uh, look at that one!
and there was a queen.
she had her own... dressed up in black.
-come back here Sam!
Her name was, I Like It Like That, queen I Like It Like That.
And fell in love with the leader from the underground he said he'd set me free.
But when I fell asleep he stole the keys and slit the scene.
I guess I'll never learn. No I'll never learn.
Fags in drag no matter were i land,
I get burned, so burned

It's hard living on a planet of women.
Gonna walk to the river and throw myself in it.

-Bye Bye.





sexta-feira, 20 de maio de 2011

Chove!




MÃE disse:

    Chove...


    Mas isso que importa!,
    se estou aqui abrigado nesta porta
    a ouvir a chuva que cai do céu
    uma melodia de silêncio
    que ninguém mais ouve
    senão eu?


    Chove...


    Mas é do destino
    de quem ama
    ouvir um violino
    até na lama.

José Gomes Ferreira


bjinho



sábado, 14 de maio de 2011

verdade empolada




"A grande fonte de miséria e das desordens da vida humana parece surgir do exagero da diferença entre uma situação permanente e outra... Algumas destas situações podem, sem dúvida, merecer ser preferidas em relação a outras mas nenhuma delas pode merecer ser perseguida com aquele ardor apaixonante que nos leva a infringir regras, sejam de prudência sejam de justiça, ou de corromper a tranquilidade futura das nossas mentes, seja por vergonha da memória da nossa própria insensatez, ou por remorso do horror da nossa própria injustiça."

by Alan Smith, in The Theory of Moral Sentiments - 1759


Por outras palavras:
Sim, algumas coisas são melhores que outras. Devemos ter preferências que nos levam a um futuro em detrimento de outro. Mas quando essas preferências nos impelem demasiado porque exagerámos a diferença entre esses dois futuros, estamos em risco. Quando a nossa ambição é delimitada, leva-nos a trabalhar com alegria. Quando a nossa ambição não tem limite, leva-nos a mentir, a enganar, a roubar, a magoar os outros, a sacrificar coisas de valor. Quando os nossos medos têm limites, somos prudentes, somos cuidadosos, somos pensativos. Quando os nossos medos são ilimitados e aumentados, somos imprudentes e somos cobardes.

Os nossos desejos e as nossas preocupações são ambos, até certo ponto, exagerados porque temos dentro de nós a capacidade de manufaturar a comodidade que, constantemente, perseguimos quando escolhemos experienciar.
No final, depois de tudo, O segredo da felicidade, são as expectativas baixas...



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Queda livre



Por vezes, a solução para sobrevivermos é a negação: negamos que precisamos de descansar, negamos que temos medo, negamos o quão desesperadamente queremos ter sucesso, negamos que estamos mal. Mas mais importante, negamos que estamos em negação. Apenas vimos o que queremos ver e acreditamos no que queremos acreditar, e resulta. Mentimos a nós próprios tanto, que a mentira começa a parecer verdade. Negamos tanto, que não conseguimos reconhecer a verdade à frente dos nossos próprios olhos. E, no final do dia, há coisas que simplesmente não conseguimos evitar não falar. Algumas não queremos ouvir, outras falamos porque não conseguimos mais mantermo-nos em silêncio. Algumas são muito mais do que aquilo que dizemos, são aquilo que fazemos. Algumas dizemo-las porque não temos outra escolha, outras guardamo-las só para nós. E, não muito frequentemente, mas todo o de vez em quando, algumas, falam por si.
Por vezes, durante o mesmo frequente todo, não conseguimos ter a calma que queríamos. Perdemos o controle que ninguém gosta de perder. Não há nada pior. É um sinal de fraqueza... de não estar à altura. Mesmo assim, há tempos em que simplesmente sai do nosso controlo: quando o mundo pára de rodar e apercebemo-nos que nada que digamos ou façamos nos vai salvar. Por muito que lutemos, caímos. Perdemos. E é assustador. Exceto na vantagem da queda livre: é a hipótese que damos aos nossos amigos de nos apanharem.
(ou, no limite, de sentirmos o chão)





sábado, 7 de maio de 2011

Por lo que tiene de romántico



Mi abrigo mugriento
El aire amargo
Una lluvia tropical
Me contagias el mal
Ese inútil anhelo
Un crimen contra la humanidad
No me trates mal
Por lo que tiene de romántico
Por lo que tiene de extraño
Me contagias el mal
Desconectado
Zarandeado
Asomado a un final feliz
Tu mirada fija en el huracán
Por lo que tiene de romántico
Por lo que tiene de extraño
Por si me contagias el mal


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Fantasias Irrespiráveis




Lembraste de como era quando eras criança e acreditavas em contos de fadas, na fantasia de como seria a tua vida, vestido branco, principe encantado que te levava para um castelo num monte. Deitavas-te à noite na cama, fechavas os olhos e tinha uma completa fé interior. O Pai Natal, a Fada dos Dentes, o Principe Encantado, todos tão reais que os sentias, mas, eventualmente, cresceste e, um dia, abriste os olhos e os contos de fada desapareceram.
Grande parte das pessoas vira-se para as coisas e pessoas em que confia. Mas a questão é que é difícil de largar totalmente aquele conto de fadas porque, quase todos nós, temos uma pequena quantidade de fé, de esperança, de que, um dia, abramos os olhos e tudo se torne verdade.

E no final do dia a esperança é algo de engraçado. Aparece quando menos esperas. É como quando um dia te apercebes que os contos de fadas são ligeiramente diferentes daquilo que sonhaste. O castelo, bem, não é bem um castelo. Não é assim tão importante o felizes para sempre, mas sim o felizes por agora. Sabes, é que de vez em quando, uma vez em cada lua azul, as pessoas vão te surpreender e, de vez em quando, há mesmo umas que te cortam a respiração...


domingo, 3 de abril de 2011

Is there?



There's a limit to your love
Like a waterfall in slow motion
Like a map with no ocean
There's a limit to your love
Your love, your love, your love

There's a limit to you care
So carelessly there, is it truth or dare
There's a limit to your care
There's a limit to your love
Like a waterfall in slow motion
Like a map with no ocean
There's a limit to your love
Your love, your love, your love




quarta-feira, 30 de março de 2011

À minha querida filha:





Estou a escrever-te uma carta. Isso mesmo, uma carta à moda antiga. É uma arte perdida, para ser franco.
Tenho uma confissão a fazer. Não gostei muito de ti ao início. Eras uma pequena criatura irritante, que cheirava bem, a maior parte do tempo. Mas não parecias ter grande interesse em mim. O que, como é claro, achei vagamente insultuoso. Eras só tu e a tua mãe contra o mundo, curioso como há coisas que nunca mudam. Por isso, juntei-me a vocês, a fazer a minha vida, ser o tolo, sem perceber bem como ser pai muda uma pessoa. E não me lembro do exacto momento onde tudo mudou. Só sei que mudou. Um minuto, era impenetrável, nada me deitava abaixo, no próximo, o meu coração, de alguma forma, batia fora do meu peito, exposto a tudo.
Amar-te tem sido a experiência mais profunda, mais intensa e mais dolorosa da minha vida. Na verdade, tem sido quase demasiado de suportar. Enquanto teu pai, fiz um juramento silencioso de te proteger do mundo, nunca me apercebendo de que seria eu quem mais te magoaria.
Quando imagino o futuro, o meu coração parte-se. Principalmente porque não te imagino a falar de mim com qualquer tipo orgulho. Como poderias? O teu pai é uma criança num corpo de homem, não se preocupa com nada e com tudo ao mesmo tempo. Nobre no pensamento, fraco nas acções. Algo tem de mudar, algo tem de ceder.
"It's getting dark
Too dark to see".



domingo, 27 de março de 2011

destino




Existe o bom, e existe o mau, o certo e o errado. Se somos abençoados por alguma sabedoria, então, existem vislumbres entre as rachas de cada, por onde a luz emana. Esperamos em silêncio durante este tempo, até a sensatez prevalecer; até a existência sem sentido ganhar foco e o nosso propósito se apresentar. E se temos a força de ser honestos, então o que encontramos aí, olhando-nos de volta, é o nosso próprio reflexo, testemunho da dualidade da vida: que cada um é capaz da escuridão e da luz, do bem e do mal, de cada, de ambos. E o destino, enquanto avança sempre em nossa direção, pode ser reajustado pelas escolhas que fazemos, pelo amor que guardamos e pelas promessas que mantemos.



quinta-feira, 17 de março de 2011

Sospetto licentia fede




"As suspeitas são entre os pensamentos o que os morcegos são entre os pássaros; voam sempre ao crepúsculo. Certamente, devem ser reprimidos, ou pelo menos bem vigiados, porque ofuscam o espírito. As suspeitas afastam-nos dos amigos e vão de encontro aos nossos negócios, que afastam do caminho normal e direito. As suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro (...).
O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco;"

Francis Bacon, in 'Ensaios'


quarta-feira, 16 de março de 2011

Quero Me Casar



Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.

Depressa, que o amor
não pode esperar!

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'


Parabéns!


sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Segredo







Em dias chave
Sei que eu vou andar a pé.
E a cada passo
o meu momento é mais longe,
quase que foge
p'lo caminho que é.
Ninguém sabe
que eu não moro cá
e ainda trago um sonho torto.

Se o dia chove
sei o que eu vou andar a pé.
E com tempestade,
cada passo é mais longe,
demora-se o mundo,
esconde-se a fé.
Ninguém sabe
que eu não moro cá,
mas onde eu faço o meu amor,
Num abrigo bom,
p'ra meu suborno.
A ideia que mais me mente
é um acaso,
coincide se é um atraso,
e eu apanho-lhe o tom.
Ela bem sabe
que eu já moro lá
e assim me estraga o meu amor.

Ainda chove,
sei que eu vou andar a pé.
Mas se o dia se abre,
esqueço o denso do dom,
entrego-me ao som
dormente...
Ninguém sabe
que eu não moro cá...




domingo, 9 de janeiro de 2011

Pressão



Todos os sistemas em pressão precisam de uma válvula para o aliviar. Tem de haver uma maneira de reduzir o stress, a tensão, antes que se torne demasiado elevada para se suportar. Tem de haver uma maneira de aliviar a pressão, porque se a pressão não encontra um caminho, então constrói um. E explode. É a pressão que colocamos a nós mesmos a mais difícil de suportar. A pressão de sermos melhores do que já somos. A pressão de sermos melhores do que pensamos que somos. Nunca alivia. Apenas se acumula, acumula e acumula.

Quando dizemos coisas como, “as pessoas não mudam”, contrariamos os cientistas, porque a mudança, é literalmente a única constante em toda a ciência. Energia. Matéria. Estão sempre a alterar-se, a mudar de forma, a fundir-se, a crescer, a morrer. É a forma como as pessoas tentam não mudar que não é natural. A forma como nos agarramos a como as coisas foram, em vez de deixarmos que as coisas sejam o que são. A forma como nos agarramos a velhas memórias em vez de construir novas. A forma como insistimos em acreditar, apesar de todos os indícios científicos, que nada nesta vida é permanente. A mudança é constante. Como experienciamos a mudança é connosco. Podemos senti-la como a morte, ou como uma segunda oportunidade na vida. Se abrirmos os dedos, folgarmos os punhos, deixarmo-nos ir, relaxarmos, pode saber a pura adrenalina. Em qualquer momento podemos ter outra oportunidade na vida. Em qualquer momento, podemos voltar a nascer.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Pilar, José e o Amor


O estereótipo de há cinquenta anos rezava: “Casaram-se e foram felizes para sempre.” O estereótipo contemporâneo preconiza: “Casamento, pantufas, aborrecimentos.” Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro, porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres e que precisa de ser estimado como milagre concreto.
(…)
Aprende-se a amar caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.

Inês Pedrosa
in Revista Única