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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Freio à comunicação amorosa


- Vim só aqui para te dizer que Não. E Não, porque só de te rever, o meu coração já galopa. Não, porque amanhã vou passar o dia a pensar em ti. Não, porque nos dias seguintes já vou estar novamente perdido de amores. Depois, vou andar irracional e alheio ao mundo, por isso, Não. Não, porque a invisível e constante saudade de agora, vai passar à vontade de te ver a toda a hora. Não, porque depois sim, vou ser bicho, vou-te querer e, principalmente, vou querer que me queiras tanto como te quero a ti e isso, vai-me fazer parecer estranho e injusto. Não, porque nos dias que dormirmos juntos, vou demorar horas a adormecer, vou fazer barulho para que acordes, suspirar e pensar em te tocar e sentir, só para não perder um segundo daquele raro momento. Não, porque nos dias que não estivermos juntos, vou ansiar em contagem decrescente e, a cada contagem de segundo, vou ficar tão louco que no final é só o louco que vais ver. Não, porque os livros e a história ensinaram-nos que amar assim é proibido e Não, porque não te sei amar de outra forma. Não, porque mesmo agora, desde o primeiro Não, que luto comigo para não te agarrar, abraçar e tomar minha. Não, porque...
- shhhh... Sim !



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

reunião de palavras


foi com uma certa esperança disfarçada que li aquela frase. como uma criança que já não é criança, que já não quer ser, mas ainda o é. que ainda se entusiasma por dentro, como um adulto, mas sem o disfarçar, como uma criança.
como todas as suas frases, ou sinais que o mundo em redor continuamente se encarrega de me ludibriar, a minha primeira reação foi tremer. involuntariamente, tremi de esperança enquanto parava de respirar, sentindo o meu coração morto durante o tempo de duas batidas. tremi um sufoco para voltar a viver e, assim que nasci, foi com uma certa esperança que li aquela frase. aquela esperança parecia ter um plano por detrás da frase e parecia ser um futuro em forma de frase.

(continua)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Saudosa inconsciência



Quando cheguei ao hospital, assim que souberam o que tinha, foi a primeira coisa que me proibiram de fazer. Depois desse dia, foram poucos os momentos em que não tive vontade.
Hoje, o dia em que me deram alta, foi a primeira coisa que fiz. Quando volto a pensar em tudo isso, lembro-me só que era muito feliz e relembro-me que é disso que tenho saudades. Talvez por culpa do Gin, cada dia sei menos sobre o porquê, mas que era, sei-o e sinto-o com toda a certeza que só se pode ser, por já ter sido, e isso, nem o Gin consegue apagar...


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

duas horas e vinte cinco minutos de paraíso



Acordei com ele a avisar-me:
- Já venho, não te atrases !
E deixei-me dormir novamente. É uma manhã de Inverno a acordar-me a um segundo de cada vez, por cada gota de água nunca quente o suficiente para me confortar a manhã. Aqui, o verdadeiro dia só começa quando se abrem as janelas de madeira e se tem frio. Só o gelo em bicos dos pés, a saltitar na tarefa para que seja rápida e fria, pela preguiça de calçar o que foi descalço à presa e à força antes de deitar, me acorda verdadeiramente o sorriso. Este sol quente de madrugada fora da época, fala-me do final de mais um ano.
Uma insónia da minha Mãe assusta-me o frio e relembra-me em forma de agenda as horas futuras. De volta a mim, o meu pequeno almoço é o cheiro quente e o silêncio torrado com manteiga. Enquanto os consumo, à mesma velocidade que os meus olhos sentem o mover de um sol sem brisa, enquanto acordo os pulmões fechados da noite anterior, enfeitiçado pelo chilrear e os ladrares longínquos, passa por mim o meu Irmão, de inchada na mão e tarefas feitas, já desperto há muitas mais horas que as minhas. Aos poucos, a manhã acorda e cala o sol que cala o frio que cala o verde que cala os pássaros que calam os cães que acordam o mundo e me cala a mim e, já com o meu Pai desperto e o carro a acordar, ele finaliza o aviso e diz-me:
- Vamos !


domingo, 4 de dezembro de 2011

Domingo



Apetece-me sentar e escrever como outros, inventar um nome e dirigir um texto. Sabes, gostava de voltar a ser quem fui, só para dizeres que me conheces porque fui quem sempre conheceste. Tenho vontade de ser eterno para alguém, de um corpo de companhia ao meu, para trocar devaneios em silêncio, sorrir no fim, fumar um cigarro e me sentir exausto de bom com tudo isso. Quero sair daqui e tudo num segundo, recomeçar de novo sem saber nada, ter tudo de repente e estar longe, bem longe daqui, com todo o bom sinal que isso implicaria. Quero voltar a África e apaixonar-me, mas por agora, quero só um whisky, velho, muito velho, e seco, e quente e em jejum para matar um nó com outro. "Quero" três vez, já é mais do que o resto das outras fracas acções e se por querer posso, não significa que aconteça... mas quero, e quero muito.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

ex-break up sex



- Precisamos de falar...
- Pelo jeito da sua voz, parece assunto sério...
- Você sempre se comporta do mesmo jeito. Estou farta. Não aguento mais !
- Pois bem... Você quer falar, a gente fala, mas só com uma condição.
- Está pondo condições ? Você sempre reage assim !
- Só falamos com uma unica condição!
- Diga então... que condição é essa ?
- No final, fazemos amor.
- Saia !


quinta-feira, 21 de julho de 2011

3218




Todos os dias um acaso diferente. Uma, ocasião imprevista que produzia um facto: o próprio acaso. Um acontecimento inesperado, repentino - casual mesmo - até ao "Feliz Acaso" que era ele próprio a hipótese fortuita de que, se calhar, talvez, por um mero contínuo acaso, naquele dia, desejar insistentemente e de forma repetida, de olhos fechados, cerrados a toda força, engelhados na pele e na expressão e na força do desejo, um 3218.
600 mil pessoas em Lisboa e, naquele dia, no dia que o mais desejou, como se - pensava - fosse impossível desejar ainda mais, vezes e vezes sem conta, com todo o falso poder da sua cabeça que tentava em vão influenciar o mundo e o acaso, a provocar o próprio acaso, eis que surge um redondo e magnífico e azul e alheio a ele e ao mundo... 3218... edição especial... sem parar... deixando-o parado... num repetido sinal vermelho, de um apático acompanhar de cabeça alheio ao restante.
Nessa noite de 3ª feira haveria de sonhar... e muito. - E infelizmente!, acrescentava-lhe o fustigado interior.



quarta-feira, 22 de junho de 2011

dramatikós


- Daqui a 30 dias vou morrer.
- Então, egoisticamente, serei a última pessoa que verás. Depois, morrerei eu todos dias, até te voltar a encontrar.



sábado, 18 de junho de 2011

Some things são qualquer coisa



Praticamos insistentemente para um momento que ainda não vislumbramos. Aperfeiçoamo-nos e tentamos influenciar o que nos rodeia, com qualquer coisa de nosso. Suspeitamos por qualquer coisa e guardamo-nos para ela. Deixamos o tempo passar, na esperança de que ele nos aperfeiçoe e que, com ele, venha qualquer coisa...

- What is this ?
- For you João, disse ela. Something I knew you'd like. Something for you to remember and, maybe, something for a special occasion.
"Something", disse-me ela. Detesto receber prendas. Nunca sei como reagir perante a desilusão e as expectativas desfraldadas. Demoro-me a rasgar o papel do pequeno embrulho mal embrulhado, caseiro e manual, como eu gosto. Na minha cabeça, treino já um sorriso satisfeito. Mas não há sorrisos desfraldados nem desilusão disfarçada.
- I'm... speechless... This is... amazing! Although I imagine this was what you intended to, I don't quite know if you're aware of how much I've appreciated this... I don't know what to say... Thank you!
Ela eleva o queixo e sorri um sorriso de missão cumprida, imagino eu (que não consegui tirar os olhos do desembrulho), de peito inchado e satisfeito. Termino numa contente voz de orgulho.
- I will save it for a very special occasion.

...eu pelo menos pratico essa suspeita e, principalmente passado todo este tempo, agora, que revejo a minha prenda de pó, penso insistentemente nela e nas suas implicações. É que ao pegar nela, no fundo, apercebo-me que há muito que expirou o prazo de validade.




terça-feira, 14 de junho de 2011

já não estou aqui



O medo adulto não é, muitas das vezes, mais do que o cansaço num desconhecimento. E é isso que esta viagem é: medo. Medo e bom e saudade e, sobretudo, desconhecimento. É não dormir pelo desconforto de que sonho e sei, num sonho, como é a vida numa remota e desconhecida noturna estação. Não tive a sorte de ter escolhido o sol mas, se a escolha foi minha, não é correcto da minha parte chamar-lhe sorte. Digo antes que não tive a audácia (ou mesmo a coragem) de ter escolhido o sol. Escolhi antes a negra solidão e toda a sua falta de luz.
Há cantos que não ouso chegar perto só pelo cheiro infeto a mijo. Não é a pestilenta urina ácida acumulada nos cantos mais recônditos, é mesmo mijo. No olhar dos residentes deste local, vejo o mesmo cheiro corrompido e caducado em forma de olhos, que me atrevo a desafiar: Não mexe ao encontrar o meu. Bastou um relance, um olhar de um segundo num sentimento inquieto de observação terceira, para numa fração de troca de olhares, eu perder e ser dominado pelos olhos negros. Aqui só vivem estes olhares, em corredores estreitos, espalhados pelo chão que me fazem medir os meus mínimos de limpeza. Apesar de aparentemente invisíveis, de ninguém se importar que os olhos durmam no chão, nas escadas ou nos corredores à média ou quase nenhuma luz, todos passam sem tocar, quebrando o ritmo certo dos passos que ora atrasam para acertar o evitar, ora adiantam para dar um salto e retomar. À medida que as horas passam, o mesmo ritmo dos passos torna-se pouco espesso e, com esta nova densidade, o movimento desaparece. Jogamos agora o jogo da estática. Nas regras, todos temos que ser pobres e, nas peças, todos temos que ter álcool.
Podia ter escolhido o sol, escolhi isto mas, até para mim, isto, está neste momento a ser demais e, aquele aparentemente inóspito e degradante café, agora, parece-me o mais acolhedor dos hotéis.
É aqui que me vou manter escondido até as horas me acordarem de volta e me trouxerem, numa voz de lençóis lavados e pequeno almoço na cama, de volta ao tempo. Neste medo pelo desconhecido, refaço a seguinte métrica: O estado de civilização de um sítio, mede-se não pela resposta à pergunta (que se torna irrelevante) mas pelo simples fato de ser feita a pergunta: se morresse aqui, neste preciso instante, neste mesmo local... que aconteceria ao meu corpo?
Foi não saber responder a esta pergunta que me fez suar frio de medo e pensar: O medo adulto não é, muitas das vezes, mais do que o cansaço num desconhecimento.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

Espero por ti cá em cima




- Papá, para onde vai aquele avião?
- Vai para o céu.
- ...ter com a mamã?



sexta-feira, 18 de março de 2011

O equívoco





- É AQUELE ALI!, ouço eu agora, o que não ouvi então com a clareza que me arrepia as dores. Quando aqueles olhos de loucos se dirigiram a mim, aos meus, absortos e aéreos como de costume, foi o primeiro soco o que mais doeu. No chão, apenas em corpo, não ouvindo os insultos de tão longe que pairava, foi o primeiro pontapé o único que senti. Quando me levantaram, enquanto descia calmamente e me deixava levar pela inevitabilidade da minha morte, não pensava no equívoco, nem tão pouco tentava perceber porque ia morrer. Pareceu-me ser um pensamento inútil. A última coisa de que me lembro, foi o sabor a sangue na minha boca e da fome que tinha. Depois sonhei. Talvez aí tenha mesmo começado a morrer, mas acho que só sonhei... e sonhava enquanto morria. Não no porquê, não no como, não no que se passa, não no vou morrer
vou morrer                            vou morrer                            vou morrer,
não nas dores, não na fome, não na barriga vazia pontapeada, não nos olhos que não se abriam de inchados, não no sangue, nem no corpo que já não sentia. Sonhava com ela: com o seu sorriso, a sua cara a sorrir, o seu toque terno e em mim eterno, as minhas mãos no seu cabelo, as suas mãos, o seu cabelo, o seu corpo escultural, o calor do seu corpo no frio dos meus pés, o seu abraço em lágrimas, o seu abraço, as suas lágrimas, os seus lábios, a sua língua, o seu beijo,
vou morrer                            vou morrer                            vou morrer,
e a nossa morte.
No hospital, quando me foi visitar, disse-lhe que nunca mais nos iríamos ver.
E dizem que morri...



sábado, 12 de março de 2011

angústia amorosa





"Vê-lá:
Eu é que caio e a tua mãe é que chora. Isto é que é amor..."




sexta-feira, 4 de março de 2011

Espectativas




Hoje vai ser o dia... hoje é o dia!
Limpei a casa, lavei o chão, pus o nosso colchão no chão, fiz a cama de lavado, comprei velas... aquelas do cheiro... Tratei do jantar: o seu preferido! A nossa sobremesa, o seu vinho favorito... até fui buscar os copos grandes. Tudo em cima da mesa sobre uma toalha nova. Escolhi as músicas uma a uma, pensadas para a cadência da noite e escolhidas por serem todas nossas. Preparei as fotos, embrulhei a prenda e apaguei as luzes enquanto espero...

hoje não há nada para celebrar, mas hoje é o dia... hoje vai ser o dia!

Acho que não me esqueci de nada...



- Querido, desculpa, hoje não poder ir. Beijo.



quarta-feira, 2 de março de 2011

viagem do regresso




Encosto de cabeça e "há dias em que o mesmo caminho de todos os dias, demora mais do que nos outros dias".
Outro botão porque "está mais frio".
Caminho que custa "quando se deseja o mundo, até o mundo é pouco".
Um carro no meio dos carros: "hoje só desejo um carro"...
uma cara no meio das caras: "hoje só desejo uma cara"...
Os olhos no chão dos chãos e "Lisboa não tem nada para mim".
A cabeça no chão dos chãos e  "Lisboa não é uma mulher, é um fedelho cigano que pede e desaparece".
Mais um andar: "...só uma cara...".
Mais um passo: "...o mundo...".




- Olá.



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Palavras





- Decepou-me a respiração!, reiterou a criada.
A chuva continuava a recrudescer sobre a efígie estóica da sentinela.
Perscrutei os presentes.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

calma...




- Aqui me tem! Toda, inteira, de repente e num só trago.
- ...
- Está a ouvir o que lhe digo!? Aqui me tem!!! Despojada de um passado, sem futuro... presente... aqui me tem... Aqui me tem! Nua, literalmente nua e ainda despida, mais ainda despida... aqui me tem... entrego-me sem mais. Sou tua!
- ...vem com calma...




segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

segunda feira



- Tenho meia hora para amar. Nem mais, nem menos.
- Então é melhor dizeres que vais chegar atrasada.



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

a chave da babilónia





O desejo de chegar e tirar aquela gravata que o sufocava crescia. Com ela, a vontade de fumar um cigarro e tornar a respirar a casa. Enquanto caminhava, a chuva caia-lhe sem saber ou, simplesmente, por não se importar. Era quarta-feira.
Ela chegava sempre ás sete e meia e, naquele dia, tudo se mantinha como sempre. Ele tinha-lhe dado as chaves do apartamento, inicialmente, sob uma qualquer desculpa sobre segurança ou de possível necessidade prática futura, mas ambos sabiam o verdadeiro significado daquela chave. Ambos sentiam o peso que ela acarretava.
Estava a acabar o seu primeiro cigarro, debruçado na janela sobre o trânsito, quando ela tocou. Ela tocava sempre.
No final, pela primeira vez, ele pediu-lhe que ficasse, e ela, pela primeira vez não quis ficar.
-Deixo as chaves ao pé da comida do gato. E saiu.
No dia seguinte, ás sete e meia, ninguém tocou... tocou ás oito.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

tumulto



o centro da cidade. Era a última pessoa para a qual estava preparado para encontrar e só por isso, o meu coração bateu numa única contracção de segundos. Fiquei completamente atónico de a ver. No primeiro piscar de olhos sorri, peguei na mão dela sem dono, no braço dela abandonado e entregue ao vento e pu-la no meu peito. Perante toda aquela multidão babilónica, por entre gritos e apitos e buzinas de carros, perguntei-lhe baixinho:
- sentes?
o silêncio dela.
- pela primeira vez apresento-te-me calmo, sem borboletas ou palpitações.
o silêncio dela e um olhar. Com medo de mais palavras, apenas belas quando improvisadas em folhas de guardanapos perdidas, perguntou-me:
- porque não me abraças?
e os carros pararam. Os condutores saíram e olharam para mim. Os passageiros saíram e olharam para mim. Todas as pessoas na rua pararam e olharam para mim. As varandas encheram-se a olhar para mim. O vento passava lento a olhar para mim. O enorme silêncio que olhou para mim. O fim do dia parou a olhar para mim. O silêncio do mundo parado à minha volta continuava a olhar para mim. O meu coração, enquanto olhava para mim, respondeu:
- porque queria que me abraçasses de volta.