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sexta-feira, 30 de março de 2012

Assonia Execra



Existirá o dia que te descobrei os podres que não partilho,
as dessintonias imperdoáveis e os gostos sem sentido em que não me revejo.
Aguardo ansiosamente a queda de um pano que me faça voltar a mexer,
que me faça voltar a ver o mundo noutras cores,
apagar sedentários e ignorantes sorrisos
e me adormeça.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Pensar


É quando o silêncio domina a noite,
que o meu pensamento fala,
se tropeça,
se exalta e aparece.
O meu pensamento é barulho
e não há calma que lhe resista.
Leio,
duas linhas concentrado e a gosto,
e ele surge para me acordar,
tomando-me dele,
como meu dono.
Está perto o dia:
De tudo o que sou,
apenas o meu corpo tem idade.
De tudo o resto,
o meu pensamento é incansável.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

gosto




Ás vezes espanta-me o meu gosto. Não por ser divinamente apurado, refinado ou simplesmente bom, que, mesmo não o sendo, gostos, efectivamente não se deveriam discutir. Não. Espanta-me por sempre me agradar.
Não há escolha material ou artística consciente e mediamente ponderada que não seja do meu agrado. Mas o espanto não vem desta mediocridade de escolha. O espantoso está na contínua intensidade do agrado.
Poderá até haver quem diga que, tudo isto, é uma falta de personalidade artística de extremo bom gosto.



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Guardada nos Rascunhos





Hoje acordarei cheio de coragem!
Pronto para enfrentar o mundo e lhe mostrar quem manda. Com a coragem que acordarei para ensinar o mundo, aconselhar a todos - que todos me parecem procurar o conselho. Aparentemente, é em mim que a verdade vive e, por isso mesmo, ensino e mostro e sorrio a sabedoria do óbvio e do teórico, aquela de que todos parecem precisar.
Deste lado logo se vê... se via, porque hoje, hoje cuidarei de mim. Curar-me-ei, completar-me-ei mais um pouco e comigo mesmo, e farei ainda um pequeno acrescento.
Corajoso, vou denunciar o interior e viver para a lua ao sol. Vou aprender a voar, a crescer e a aparecer, e vou dizer que estou ali, e aqui e ali, sempre e ao mesmo tempo.
Hoje, vou dizer que sim e não ter medo do não.
Vou ser pensamento em voz, corajosa presença numa vulgar coragem que julgo ser só minha e, no derradeiro e final acto, corajoso, como sempre acordo e me deito, carrego no vermelho e leio todas as nobres intenções numa única fralda: "Guardada nos Rascunhos".



sábado, 18 de junho de 2011

Some things são qualquer coisa



Praticamos insistentemente para um momento que ainda não vislumbramos. Aperfeiçoamo-nos e tentamos influenciar o que nos rodeia, com qualquer coisa de nosso. Suspeitamos por qualquer coisa e guardamo-nos para ela. Deixamos o tempo passar, na esperança de que ele nos aperfeiçoe e que, com ele, venha qualquer coisa...

- What is this ?
- For you João, disse ela. Something I knew you'd like. Something for you to remember and, maybe, something for a special occasion.
"Something", disse-me ela. Detesto receber prendas. Nunca sei como reagir perante a desilusão e as expectativas desfraldadas. Demoro-me a rasgar o papel do pequeno embrulho mal embrulhado, caseiro e manual, como eu gosto. Na minha cabeça, treino já um sorriso satisfeito. Mas não há sorrisos desfraldados nem desilusão disfarçada.
- I'm... speechless... This is... amazing! Although I imagine this was what you intended to, I don't quite know if you're aware of how much I've appreciated this... I don't know what to say... Thank you!
Ela eleva o queixo e sorri um sorriso de missão cumprida, imagino eu (que não consegui tirar os olhos do desembrulho), de peito inchado e satisfeito. Termino numa contente voz de orgulho.
- I will save it for a very special occasion.

...eu pelo menos pratico essa suspeita e, principalmente passado todo este tempo, agora, que revejo a minha prenda de pó, penso insistentemente nela e nas suas implicações. É que ao pegar nela, no fundo, apercebo-me que há muito que expirou o prazo de validade.




segunda-feira, 6 de junho de 2011

Por,


    por vezes, por uma, por sempre ou por todos os dias,
por até depois e um, dois... demasiadas ou de vez em quando...
      mas sempre por qualquer coisa.

Por um momento, por dois, por uma ou duas lembranças, por vários pensamentos,
por algumas imagens ou por outras poucas...
      mas sempre por qualquer coisa.

Pelo silêncio de momentos em cor, pela paz, pela lentidão profunda do ar que entra e pela mesma cadência de ar que sai, nas páginas brancas e num lápis, nas seguintes e numa caneta...
      mas sempre numa qualquer névoa que fica.

Pela chuva que já caiu e pelo sol que já aqueceu,
(principalmente o sol)
                                                 na terceira pessoa de pele
(sem dúvida a pele das peles)
                                                          ou na vontade do ser, no sermos nós e no não sermos,
      mas no sermos sempre qualquer coisa,
nos sonhos de agora e nos de outrora, na tentativa indolente de pensamentos, vem uma música que fica por entre os sons que se parecem esquecer e as imagens que não vão, na capacidade de recordar, de manter e  de não querer sequer perder por cima por uma qualquer e nostálgica qualquer coisa






de silêncio.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Hoje acordei o sol




Ainda não existem horas nesta manhã,
porque não houve noite nesta noite.
Se não existiu sono, não existiram horas.
É o corpo que aponta os minutos que, quando são horas,
se existe luz,
é tempo.
Mas hoje ainda não existe luz nem existem horas.
Eu, nem sei se ainda existo, por isso     corro,
                                                                c o r r o,
                                                                      c  o  r  r  o
para acordar a luz e com ela, acordar a cidade.
Já sei que com a cidade acordo eu.
E começa a manhã:
Diferente de todas as manhãs, numa manhã que foi dia sem noite.
Começa o dia de dia, sem pernas e sem folgo e sem a prévia noite que adormece o dia e o descansa,
para hoje,
o dia,
ser dia sem noite.
Hoje, ainda não existia luz e já eu     corria,
                                                        c o r r i a,
                                                               c  o  r  r  i  a
e gritava os pulmões em silêncio, na esperança de esquecer as noites e os dias.
Bom dia:
Hoje, foi eu que acordei o sol.








quarta-feira, 20 de abril de 2011

juízos




Uma boa decisão vem da experiência... grande parte da experiência vem de más decisões.




sexta-feira, 18 de março de 2011

O equívoco





- É AQUELE ALI!, ouço eu agora, o que não ouvi então com a clareza que me arrepia as dores. Quando aqueles olhos de loucos se dirigiram a mim, aos meus, absortos e aéreos como de costume, foi o primeiro soco o que mais doeu. No chão, apenas em corpo, não ouvindo os insultos de tão longe que pairava, foi o primeiro pontapé o único que senti. Quando me levantaram, enquanto descia calmamente e me deixava levar pela inevitabilidade da minha morte, não pensava no equívoco, nem tão pouco tentava perceber porque ia morrer. Pareceu-me ser um pensamento inútil. A última coisa de que me lembro, foi o sabor a sangue na minha boca e da fome que tinha. Depois sonhei. Talvez aí tenha mesmo começado a morrer, mas acho que só sonhei... e sonhava enquanto morria. Não no porquê, não no como, não no que se passa, não no vou morrer
vou morrer                            vou morrer                            vou morrer,
não nas dores, não na fome, não na barriga vazia pontapeada, não nos olhos que não se abriam de inchados, não no sangue, nem no corpo que já não sentia. Sonhava com ela: com o seu sorriso, a sua cara a sorrir, o seu toque terno e em mim eterno, as minhas mãos no seu cabelo, as suas mãos, o seu cabelo, o seu corpo escultural, o calor do seu corpo no frio dos meus pés, o seu abraço em lágrimas, o seu abraço, as suas lágrimas, os seus lábios, a sua língua, o seu beijo,
vou morrer                            vou morrer                            vou morrer,
e a nossa morte.
No hospital, quando me foi visitar, disse-lhe que nunca mais nos iríamos ver.
E dizem que morri...



terça-feira, 19 de outubro de 2010

e estro?

escrevo escrevo escrevo
                                     e apago,
escrevo escrevo escrevo
                                     e rasgo,
escrevo escrevo escrevo
                                     e risco,
escrevo escrevo escrevo
                                     e branco,
escrevo escrevo escrevo
                                     e nada,
escrevo escrevo escrevo
                                     e lixo,
escrevo escrevo escrevo
                                     e desenho,
escrevo escrevo escrevo
                                     e escrevo!
escrevo escrevo escrevo
                                     e repito...



segunda-feira, 11 de outubro de 2010

caixa





caixa que te agitas,
que te mexes e espevitas,
pelo ruidoso barulho que transbordas,
és a caixa de tudo que me acordas.
embalas-me em tormentas,
não me fazes nem me pensas.
a caixa que faço para voltar ao mundo,
não me deixa viver nem um segundo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

p . . . . . l . . . . . a . . . . . n . . . . . o






              hoje não existo,
              não sou eu!


                                                                       não sei sequer quem sou.


                                     hoje,


                                                           como ontem,


                        como no dia anterior,


                                                                                              como todos os dias até então,


apenas plano.


nem ao menos voo:

plano!


                           não sinto,
                           não estou,
                           nem sou.


                                                                              nem sei:


plano.


                          engulo o ébrio para voar um pouco,


                                                                         ingiro o fumo que me voa mais um pouco,
                                                                         depois:


                                       f
                                        l
                                    u
                                      t
                                   u
                                     o,


                      para apenas planar de mais alto.


                                                                               hoje não existo mais um pouco:


e plano.


                          hoje gostava de saber escrever.

                                                                                     de conseguir falar.


                        de conseguir ser pelo não saber e descer à terra a dois palmos de mim.


                                     gostava de voltar a ser gente: ignorante e livre gente.


               gostava de ser cíclico,
               de ser moda.


                                                     de ser um deus e voar com o temporal lá fora,


                   de não ter que ser homem
                   para não ter que planar.


                                                                                  hoje,
                                                                                  por uma vez que fosse,


                               só desta vez,


                                                                      gostava de poder ser eu a mandar!


                 mas não.


                                                                                     continua o vento no trono,


                                        e mesmo esse,


                                                                          insiste em me abandonar ao ar.


                             escravo de ti,
                             tristemente assinto,


e tristemente plano.





quinta-feira, 7 de outubro de 2010

nada



quando não se dá tempo ao tempo,
acaba-se com o tempo do tempo.
se se deixa solto o tempo,
esquece-se que existe tempo
e, com o passar do tempo,
o tempo deixa de ser tempo.
o iletrado tempo
que não compreende o tempo,
o analfabeto tempo
que não percebe o tempo,
o tempo que me mata o tempo
e a mim, que já fui tempo.
e agora Tempo,
não sou nada nem sou tempo!
perco-me antes no tempo,
sou as horas e os minutos e os segundos do tempo,
sou as flores e as folhas e o despido do tempo,
sou o calor e o ameno e o frio do tempo,
sou a ausência do tempo dentro do tempo.
sou mágoa do tempo,
que injustiça o tempo.
e agora Tempo,
agora, não sou nada... nem sou tempo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O futuro do par, do par de pêlos brancos



Finalizo sem referências a mestrias,
sem uma tão desejada glória,
ou o verde de um número a assinalar um feito.
Chego antes ao fim com o vermelho,
num desígnio sem a desejada memória futura do passado,
na consciência casmurra da impossibilidade presciente de outrora.
O momento,
é-o assim,
desenxabido,
numa façanha insípida,
sem digno assinalar ou celebração.

Teoricamente importante,
muito importante até,
agora,
apenas se passa num encolher de ombros suspirado,
com um resignar a significar o mais forte dos constrangimentos
e a falta dA única presença,
o mais forte dos desgostos.
Sem culpas, sem dedos e sem miras,
esta, equivale à falta da partilha pela vontade de estar,
ao desejo de um abraço luchado e,
talvez por tudo isso,
ao querer de volta um pêlo branco na testa.

Quero de volta os nossos pêlos brancos!
Misturados nos brancos de mais um ano,
mas com o voltar do seu sentido inocente do descobrimento
e do significado ingénuo que lhe atribuímos:
O par do par de pêlos brancos!

Aguardo futuros dias de descanso,
futuros passados de antes para trás,
passados futuros de hoje em diante,
ou,
simplesmente,
o futuro!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Almas de Terra Preta

Tenho um saco de almas que colhi do meu jardim. Aquele de terra preta onde nada cresce. Abafo-as de porrada naquele saco fechado sem ar onde não deixo nada sair. Nem uma alma daqui sai mas se saísse, saia negra, directa para o chão preto de onde nasceu. Lá dentro, existe a suspeita do nada fora do saco, de ser na sua essência que está a verdade do ser, mas quando parti o esmalte da força que fiz ao juntar os maxilares, rosnando o meu incompreensível, quando gritei os meus pulmões em sangue para a rua deserta, agarrando com toda a força o parapeito, arranhando-o enquanto ia plantando unhas demasiado crescidas, não senti dor e o saco caiu aberto. Vazio.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vago

No silêncio voltam as palavras. Volta o Gin. Voltam as vozes e volta o imaginário, mas pela primeira vez, preferíamos não voltar a escrever.
Na banalidade do nada quase perdemos tudo e não é um recado a quem não ouve nem uma lição de quem não sabe. É apenas a grande ausência de uma consciência entre muitas inconsciências de tudo. É uma trégua farta, um cansar de rastos, um esgotar exausto e um gritar insonoro. É um pedido de ajuda e um esticar de mão. Uma bóia para quem não nada e um tónico para quem não dorme...
Se o vago é vagamente incompreendido, o concreto não chega.
.Não percebo...
,Nem eu...
Deixamos estragar o que não se aproveita e deitamos fora só porque já não serve. Mas o mundo não é verde e a reciclagem só é tricolor. Quando a é. A sucata está cheia e fazemos mais lixo do que nós. Crescemos os sujos que se limpam a toda a hora. Crescemos iguais e somos a moda. Vemos por um canudo alheio a vida dos outros e inspiramos o pútrido ar da regeneração.
.Continuo sem perceber
,Nem eu...
Vivemos para o amor e amamos o nada. Queremo-nos a nós de uma garfada e aos outros em degustação. Sorvemos a vida num beijo para fechar os olhos ao impossível.
,Lutemos então!
.Reciclemos.
De Gin ou de bóia, diferentes ou na moda, não importa!
Desde que não vagueemos. 

quarta-feira, 17 de março de 2010

Fumaças...


Dêem-me um fogo para apagar,
Ou um amor para lutar!
Dêem-me uma meta para correr,
Ou algo porque morrer!
Dêem-me de volta o sorriso,
Ou aquilo que preciso!
Dêem-me o tempo parado,
Ou um adeus ao consumado!
Dêem-me com que atravessar,
Ou atirem-me o corpo ao mar!


Dêem-me o que não mereço!
Digam-me! Qual é o preço?
Hoje mesmo vendo a alma
Para que tudo volte à calma!

terça-feira, 16 de março de 2010

Amantes

   E foi o que fez quando tudo terminou, na noite em que ela chegou com o cabelo ainda húmido e movimentos de sonâmbula e adormeceu nos seus joelhos. Mas tudo isso sucedeu muito depois daquele primeiro encontro, pelo que não se verificaram importantes variações no guião previsto. O ritual continuou por caminhos trilhados e previsíveis, embora insuspeitadamente satisfatórios. Julia já tivera outras aventuras, mas nunca sentira, até à tarde em que Álvaro e ela se encontraram pela primeira vez na estreita cama de um hotel, a necessidade de dizer amo-te daquela forma dolorosa, dilacerada, ouvindo-se a si mesma pronunciar com uma deslumbrada estupefacção, palavras que antes sempre se recusara a pronunciar, e num tom desconhecido que se assemelhava muito a um gemido ou a um lamento. Uma manhã em que acordou com o rosto pousado no peito de Álvaro, depois de afastar com cuidado o cabelo despenteado que lhe cobria o rosto, olhou durante muito tempo o seu perfil adormecido, sentindo o suave bater do coração junto à sua face, até que ele, abrindo os olhos, sorriu ao encontrar o seu olhar. Nesse momento, Julia soube com a certeza absoluta que o amava...

segunda-feira, 8 de março de 2010

A Mentira

.Explodimos! Gritamos a raiva do que ouvimos e do que vemos! Descontrolamo-nos!
,É mais fácil ser poeta do que falar, por isso baixamo-nos, diminuimo-nos e mostramos o errado pela falta de hábito. Não conhecemos o mal. Mostramos tudo ingenuamente. Não há mais segredos. A mentira acaba aqui. No início do tarde demais.
.Crescemos ainda mais! Expulsamos pela raiva e incompreensão daquilo que, agora, só faz sentido. Fumamos o primeiro de há muito, é o simbolo do destroço.
,Saímos. Pensamos, choramos e percebemos. Não dormimos com lágrimas de ideias e, pelo sentimento unicamente descodificável, por ser só nosso, frustramos. É a maior frustração da vida, quando apenas nós sabemos tudo. É o cartão vermelho sem falta. Mas houve falta. Não houve foi agressão e agora, não há compreensão pelas intenções e os factos parecem claros.
.Não dormimos. Pensamos, não percebemos, enraivecemos mais e mais. É o sentimento de traição de a quem demos tudo. Pensamos, não percebemos e enraivecemos ainda mais. Deixamos de querer ver, porque tudo parece claro.
,Voltamos. Num ápice, num impulso que o racional reprova mas o coração sobrepõe porque quem manda é ele, voltamos. Olhamos e crescemos e explicamos. Deixamos o poeta à porta.
.Queremos mas não queremos. Mas porquê?!? Não queremos ouvir, explodimos. Enraivecemos e dizemos tudo. Apontamos e insultamos, perdemos a razão com razão. Fumamos mais um.
,Escrevemos e saímos. Já não olhamos o chão mas o coração mal respira. Conduzimos os olhos turvos ao sítio onde já fomos.
.Lemos. A estupfacção do que lemos tem que ser respondida. Sem palavras.
,Respondemos, mostramos o errado e respondemos. Não.
.Sim!
,não.
.SIM! e um beijo.
,Um beijo... um beijo? Vemos para além de tudo só por quem manda. O coração. De repente, sentimos a esperança em tudo. Sabemos de tudo e deste lado a tranquilidade é maior por isso. Há uma tristeza mais calma e resignada, mas sempre acompanhada da frustração. Dormimos de lençóis vazios e uma segunda almofada de companhia. Mas não dormimos. O corpo mostra-se capaz de resistir a tudo e acompanha a mente que não dorme. Pedimos ao corpo que nos deixe. Imploramos o sono. Desesperamos. Confessa-se a saudade pela companhia dos cabelos, do cheiro e da memória. Horas passam a reler o beijo que agora diz adeus. Assiste-se ao aumento da intensidade da luz a cada segundo. Desta vez, a manhã é mais triste do que a noite. Desta vez, não falta menos um dia. Desta vez, passou mais um e nada. Ocupemos a cabeça fora do nada e façamos tudo. Impossível. Ela está em tudo. No isqueiro, na vela, na água, no sumo, na árvore, no papel, na caneta, no ar, cá dentro e cá fora. Em tudo o que tudo procuro para não pensar. Arrastamo-nos à amizade. Engolimos em seco, respondemos como amigos e mostramos o que está mal. Apelamos à reflexão do porquê do mal do passado.
.A incompreensão da suposta tentativa de transferência de culpa, é cruel. Transmite-se o mal hediondo, o sentimento atroz, e o desejo de esperança ténue nas entrelinhas.
,Conversa-se com a intransigência, apela-se ás soluções. Ao futuro.
.Recorda-se o passado planeado para o futuro, as chances e as hipóteses. O cansaço dos passos em frente e dos recuos e a não compreensão pela não auto avaliação. Diz-se que se dorme.
,O tempo será sempre o tempo. Aprendamos e evoluamos. Se nada acontece por acaso, o que é que será que o acaso trouxe desta vez? Aprendizagem para o futuro? Mas de quem? Do meu certamente. Do teu... Do nosso... Ouve agora o grito ao mundo que querias, ouve uma voz rouca que fica sem voz. Mas não pára. Quererás nomes? Não faz parte de mim, mas todos sabem os nossos. Grito bem alto porque não sei cantar. Ouves?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sou mau, logo existo

Podem-nos educar como quiserem, ensinarem-nos as coisas do mundo e como tudo acontece. Podem-nos dizer o que há e o que não há, quem faz e quem não faz, que nada disso se sobrepõe ao sentimento do que vimos à nossa volta.
A única coisa que nos ensinam e preparam (ou tentam) é a reagir e a interpretar. Nem é a absorver, que isso não se ensina, aprende-se. E quando o ouvimos de uma entidade que consideramos superior, então, interiorizamo-lo como certo. Passa a ser essa a única verdade, aquela que possuímos porque foi a que nos disseram. E quem nos disse sabe tudo. 
Se, pela experiência, vamos aprendendo por nós próprios, também o vamos aprendendo pelos outros, os que se nos apresentam à nossa frente para, inconscientemente (para os dois), nos oferecerem a experiência. Sejam os passarinhos ou sejam o que for. E se só crescemos por nós próprios, então crescemos pelos outros.
Espera lá!
Afinal, se calhar, a culpa nem é nossa. É somente daquilo que se nos foi apresentando à nossa frente.


Eu acredito no contexto:
Cresço mau se me fazem mal. Se vejo o mal, se ouço que tudo é mau, também eu serei mau. Pior do que seria, é certo, mas mais forte, mais preparado e mais consciente do mundo. Daquele que é mau, pelo menos...
Mas se não o conheço, então cresço ingénuo e ignorante. Não sei é se acredito nisso, que é possível não o conhecer. Pelo menos por algum tempo, porque quem diz não o conhecer mente. A quem diz não o conhecer, não é permitido pelos outros que não o conheça, porque se não o conhece é porque está a mentir e se está a mentir, é porque já é mau. Como os outros.