quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Down



- A mãe estava a berrar tanto... achas que ficou bem ?
- Não te preocupes. Não penses mais nisso.
- Sabes, acho que estou apaixonado. Ela gosta do (...) não gosta? E gosta mais do que de mim ?
- Gosta de maneira diferente. Mas gosta muito de ti.
- Acho que estou apaixonado.
- Gosta da (...) e gosta de ti. Gosta dos dois muito.
- Acho que estou apaixonado... sabes como é pai ?


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

cabeça a prémio?



Alugo-te o corpo ao teu melhor preço.
Mas não te iludas...
Para a cabeça não tens moeda.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Domingo



Apetece-me sentar e escrever como outros, inventar um nome e dirigir um texto. Sabes, gostava de voltar a ser quem fui, só para dizeres que me conheces porque fui quem sempre conheceste. Tenho vontade de ser eterno para alguém, de um corpo de companhia ao meu, para trocar devaneios em silêncio, sorrir no fim, fumar um cigarro e me sentir exausto de bom com tudo isso. Quero sair daqui e tudo num segundo, recomeçar de novo sem saber nada, ter tudo de repente e estar longe, bem longe daqui, com todo o bom sinal que isso implicaria. Quero voltar a África e apaixonar-me, mas por agora, quero só um whisky, velho, muito velho, e seco, e quente e em jejum para matar um nó com outro. "Quero" três vez, já é mais do que o resto das outras fracas acções e se por querer posso, não significa que aconteça... mas quero, e quero muito.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fado




É o que vivemos que nos molda a cara,
o que sonhamos,
           que nos faz viver,
o que sentimos,
           que nos faz perder,
mas é pelo que desistimos que somos assombrados.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

enfado



Ter consciência que não penso já é pensar demais.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

ex-break up sex



- Precisamos de falar...
- Pelo jeito da sua voz, parece assunto sério...
- Você sempre se comporta do mesmo jeito. Estou farta. Não aguento mais !
- Pois bem... Você quer falar, a gente fala, mas só com uma condição.
- Está pondo condições ? Você sempre reage assim !
- Só falamos com uma unica condição!
- Diga então... que condição é essa ?
- No final, fazemos amor.
- Saia !


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Futuro de la Palice




sou aquilo que faço,
não aquilo que espero que aconteça.


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

reflexo




A ausência de conhecimento é o espelho da ignorância.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

two ships...

...one wreck.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

sem título



todo   o   esforço   que   faço   para   não   ser   eu,

é    um   passo   para   me   afastar   de   mim   mesmo.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

sem título, propósito ou destinatário,



no concreto da busca,
procuro não sei bem o quê,
sem saber o que fazer quando encontrar,
mas pretendendo
(não sei bem como)
indagar a presença em silêncio mútuo.

Esta porta que se me apresenta na procura,
não lhe toco,
não lhe bato,
nem a passo,
porque não posso passar portas que não me vêem.

Deste meu lado,
aguardo o que só eu vejo:
a cobardia da procura pelo excesso de sanidade.

A coragem da procura
(de não sei bem o quê),
resulta do retrocesso da sanidade
e o retrocesso do passo
(ao encontrar o que procuro),
é o que me faz tristemente são.

Mesmo assim procuro,
e porque as portas não falam,
arrepio caminho,
e amanhã,
volto a procurar.



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

المغرب‎ - Marché des Caravanes, nr. 19: Vous connaît la crise mondiale ?




Quando nos voltamos a reunir com Hammi, pedimos-lhe que no regresso nos leve onde comprar o chá de todo o Marrocos. Leva-nos a Rissani, a um antigo bazar de produtos alimentares, onde compramos todo o chá que vamos querer consumir e oferecer.
Perante a enorme agitação da cidade, Hammi explica-nos o movimento fora do normal, pelo decorrer do mercado tri-semanal e pela feira dos burros mensal. Centenas de burros estacionados, à espera de serem comprados por 100€ cada. A curiosidade impôs-se de imediato: "Et le dromedaire?". 1000€ e vendem-se uma vez por mês. Neste momento ficamos a saber o valor da Ana, pela qual ofereceram 20 dromedários. Antes de voltarmos ao jipe, perguntamos a Hammi sobre a possibilidade de entrarmos no mercado à nossa frente. Hammi hesita, olha para a entrada do mercado e diz que podemos ir se quisermos, mas que ele não pode abandonar o jipe. A polícia pode aparecer.
Entramos no mercado dos mercados, onde tudo se vende numa aparente confusão de produtos e pessoas. Fruto de como a televisão e as notícias nos apresentam parte do mundo árabe, a minha desconfiança aqui é maior do que nos outros sítios. Estamos por entre becos minúsculos, completamente rodeados de estranhos que nos parecem olhar com desconfiança. Talvez com a mesma aparente desconfiança que olharia para uma mulher de burka no meio de um nosso mercado municipal, mas que não seria mais do que a estranheza pela sua presença. Neste sentimento de empatia, destruo toda a desconfiança e torno-me imune aos olhares, sorrindo sempre em cada passo. Vários comerciantes revelam-se surpreendentemente simpáticos, ao cumprimentarem-nos, convidarem-nos a comprar qualquer coisa no seu espaço, ou simplesmente indicando as diferentes áreas do mercado que podíamos visitar. Uns oferecem o seu canto para tirar uma fotografia, outros, mais sérios, impedem vivamente qualquer tentativa. Um sorriso e um pedido de desculpa e prosseguimos por entre a carne exposta ao ar repleta de moscas, tâmaras a secar, roupa, pequenos produtos electrónicos chineses, chinelos, fruta, especiarias e tudo o que um Berbere poderá querer comprar, num mercado que parece ter tudo. Aqui, como em quase todos os outros locais, a interpelação é a mesma:
- Portuguixe? bátátáfrita.
E uma nova:
- Lixboa? Benfica!
Ao voltarmos, antes de sairmos, Pedro lembra-se que precisa de comprar tabaco e ofereço-me para voltar atrás com ele. Encontramos Ismael, um árabe que nos tinha acompanhado pelo mercado, mesmo perante a nossa indiferença, farta de compras impingidas. Agora, com pressa, pergunto-lhe onde podemos comprar tabaco. Sigam-me, responde. E sigo-mo-lo por entre o labiríntico mercado. Enquanto Pedro compra tabaco, Ismael explica-me que tudo o que tem vestido, incluindo um relógio da Nike, foi trocado com estrangeiros. A camisa e as calças da Toyota foi trocada, os sapatos foram trocados, tudo foi trocado. Não consigo evitar uma gargalhada e faz questão de dizer que fala muito a sério. Num riso, recuso-me a trocar de roupa com ele e pede-me que pelo menos tiremos uma foto da loja dele, para que possamos fazer publicidade em Portugal. Devolvemos a amabilidade de nos indicar onde comprar tabaco, aceitando.
Entramos para uma de três salas da loja, onde expõe um largo número de bugigangas e muitos dos típicos souvenirs marroquinos. Tira vários colares de uma gaveta e coloca-os em cima de uma mesa, enquanto comento com o Pedro que fomos só comprar tabaco há 10 minutos e ainda não voltámos. Responde-me com a escolha de um pequeno tambor de uma das prateleiras. Perante o interesse, de imediato entra o dono da loja, bastante mais velho que Ismael, pronto a fazer negócio com um fantástico tambor de pele de dromedário, muito resistente ás elevadas temperaturas. Ismael pede-me para o acompanhar a outra sala. Uma sala rectangular, com estantes do chão ao tecto repletas dos mais variados tipos de tapetes em todas as paredes e todo o centro da sala vazio. Pedro e o dono juntam-se nós e num sorriso que transparece a grande amabilidade e esconde ao máximo o vendedor, o dono diz-me:
- Estes são os nossos produtos, não têm que comprar nada, gostava só que vissem e se não estiverem interessados, pas de problem.
Começa a retirar tapetes que vai estendendo no chão.
- Este tapete é de seda com lã (1º). Podem reparar na qualidade superior.
E estende um bonito tapete em tons de amarelo, bem trabalhado, aparentemente de boa qualidade para o meu olho não especialista.
- Este, é de lã (2º). Não tão bom.
Confirmo com o olhar que é notória a diferença de qualidade.
- E este é de fraca de qualidade (3º), como se pode reparar pelos pespontos e o fraco acabamento.
E entende-o no chão, com indiferença por aquela pobre peça.
Ismael passa-lhe um pequeno caderno já escrito e uma caneta e o dono escreve-me o preço dos três tapetes:
1º 1600 DH
2º 980 DH
3º 560 DH
Passa-me o caderno para as mãos e pergunta-me:
- Quando aqui entraste, quando olhaste para todos estes tapetes, qual foi o primeiro valor que te veio à cabeça? O primeiro de todos!
Na folha de papel quadriculada do pequeno caderno escrevo 200 e devolvo-lhe o caderno.
- Muito bem. E o preço com o tambor?
Passa-me novamente o caderno, olho para o Pedro, escrevo 250 e devolvo-lhe o caderno.
- Ok. Escreve-me o teu máximo possível pelo tambor e pelo tapete.
O dono não revelava qualquer emoção de surpresa ou indignação sobre as ofertas que eu ia escrevendo. Limitava-se a sorrir, interrompendo por vezes a venda para afirmar que podíamos eventualmente não chegar a um acordo, mas que não havia qualquer problema. Uma espécie do nosso, amigos à mesma.
Ismael interrompe e do outro lado da sala pergunta-nos:
- Chá com ou sem açúcar?
Tratando-se de um negócio, o chá era óbvio e obrigatório, a única questão era o tempero.
Para definir o máximo possível voltei a olhar para o Pedro que me responde em silêncio, num olhar cúmplice que retrato na folha de papel quadriculada: 300.
- Não pode ser! O máximo! Aquilo que é mesmo o máximo!
E apercebendo-se da minha troca de olhares para o Pedro, rouba-me o caderno das mãos e dá-o ao Pedro. O máximo dos máximos: Mais dois euros e escreve 320. O dono faz um ar sério e diz:
- Uma proposta séria!
Fazemos uma contas rápidas em voz alta, falamos um pouco de português com uma voz universalmente indignada e Pedro sobe um euro: 330. O dono solta uma genuína gargalha e diz-me que posso ir embora porque vai ficar a negociar com o Pedro. Esboço um leve sorriso e ele retira novamente o caderno das mãos do Pedro e pergunta-me:
- Vous connaît la crise mondiale ?
- Conheço muito bem!
E soltamos os três uma enorme gargalhada.
- Ok. Escreve aí a tua proposta final. Aquela que ou é ou não é. O que escreveres, ou aceito, ou amigos à mesma. A tua proposta final!
Pergunto a Pedro quanto quer pagar pelo tambor, fazemos contas e decidimos o nosso máximo. Escrevo 350 e devolvo-lhe o caderno.
O dono gesticula, fala em Árabe como se já não estivéssemos na sala, pressiona o topo da caneta fechando-a e guarda-a no bolso, continuando aquilo que não conseguimos compreender. O negócio terminou. Tinham passado mais de quarenta minutos desde que fomos "só ali comprar tabaco" e podíamos finalmente regressar. Imaginava a preocupação de quem nos esperava.
- Ok. Fechado! Mas com uma condição! Têm de fazer publicidade sobre nós em Portugal e junto dos vossos amigos. Sem compromisso, claro.
Ismael acompanha-nos à saída. Dá-nos um aperto de mão e deseja-nos boa viagem.
Ana estava dentro do jipe com Hammi. Aparentemente, teve que se refugiar da multidão que a começou a cercar, cada vez mais próxima dela e da sua beleza ocidental de ombros destapados.
Partimos em direcção a Ouarzazate.